Lembrança de Júpiter

Quando fiquei amigo de uma turma de gaúchos que habita Brasília, logo notei que eles até achavam o rock dos anos 1980 e 1990 da nossa cidade bom, mas legal mesmo, “afudê”, eram as bandas de Porto Alegre e adjacências. Uma mistura de orgulho e lembranças bacanas fazia os olhos dessas pessoas brilharem quando elas falavam de Replicantes, TNT, Os Cascavelettes, Graforréia Xilarmônica e tantos outros artistas que forjaram a identidade jovem do Rio Grande. Eu até concordava que o excesso de seriedade da Turma da Colina podia soar bobo passado um tempo, mas não engolia bem a infantilidade e o machismo que reparava da produção sulista.

Porém, para quem nasceu em uma cidade que, de maneira geral, só presta atenção nos músicos locais quando eles ganham reconhecimento nacional — “nossa, eles são de Brasília?!” —, ver a paixão dos gaudérios por artistas que não eram muito famosos no resto do país me deixava admirado e curioso. Gostaria de ver alguns desses heróis dos pampas em ação, pensava.

A chance veio no comecinho dos anos 2000, quando o saudoso Gate’s Pub abriu espaço para o rock independente, graças ao empenho de um de seus sócios, Rubens Carvalho. O bar da 403 Sul virou o lugar mais amado pelos roqueiros da cidade, que iam lá por causa das festas, da Quarta Vinil e das memoráveis Noites Senhor F, que o jornalista Fernando Rosa (outro gaúcho radicado no Plano Piloto) organizava. As Noites abriram espaço para dezenas de bandas brasilienses, mas também foram responsáveis pelos primeiros shows na cidade de vários artistas de fora, incluindo os do Sul, como Cachorro Grande, a própria Graforréia e Frank Jorge.

Em maio de 2005, Fernando montou uma edição especial do evento, uma Super Noite Senhor F, que reuniu, em dois dias, oito bandas, tendo no encerramento, cereja do bolo, Júpiter Maçã, nome artístico de Flávio Basso, fundador do TNT e dos Cascavelettes. Eu não podia perder essa estreia do músico na capital, até porque tinha sido escalado para abrir a noite (sim, como quase todo mundo em Brasília, eu também sempre tive banda).

Ficava imaginando como seria o sujeito, aparente encarnação da irreverência e do non-sense, e me surpreendi quando fui apresentado a ele na passagem de som. Ele me pareceu doce e simpático. Foi na hora do show, porém, que a força de Júpiter ficou clara. Para um Gate’s bem cheio, ele desfilou composições tão criativas quanto originais, que me pareceram bem melhores que as do início de carreira, ora o retrato de uma grande parte da juventude, ora uma viagem tropicalista irônica, boa descrição para ‘A marchinha psicótica do Dr. Soup’.

Inesquecível, contudo, foi o momento em que, empolgado, emocionado, enlouquecido, o público cantou com ele a canção que capta tão bem o desejo que se tem quando se é novo e se ama o rock: “Eu preciso encontrar / Um lugar legal pra mim / Dançar e me escabelar / Tem que ter um som legal / Tem que ter gente legal / E ter cerveja barata”. Impossível não se render a um artista que cria um hino. Não é qualquer um que consegue isso. Naquela noite, o Gate’s Pub foi o título dessa canção: ‘Um lugar do caralho’.

Anteontem, Júpiter morreu, aos 47 anos, em Porto Alegre, depois de sofrer um acidente em casa. Deixa milhares de admiradores, hoje espalhados muito além das fronteiras gaúchas. Valeu, Júpiter.

Crônica publicada no Correio Braziliense em 23 de dezembro.

E o hino:

A carta

Screen Shot 2015-12-17 at 5.34.08 PMAmor (será que posso te chamar assim ainda?),

Felix culpa ‪#‎xatiado‬ 😦

Escrevo porque não dá mais. Já faz tempo que quero te dizer umas coisas, mas a gota d’água veio no domingo passado, lá no churrasco no Parque da Cidade. Quando fui pegar uma cerveja pra mim e pro Jorjão, ouvi você comentando com suas amigas que não sabia se eu era fiel a você. Como assim? Somos casados há cinco anos, tá no papel. É a lei. Você insistiu e eu aceitei, mesmo depois de perguntar pros meus amigos e só 59,9% deles acharem uma boa ideia a gente trocar alianças. E só concordaram porque falei que ia ter festão, com uísque e tudo mais. Me esforcei, percebe? Não, parece que não percebe, porque, como vi, você não confia em mim.

Mas quero te dizer que não é você que tem motivos pra ficar chateada. Eu que tenho na verdade. Vários! Olha só:

1) Passei os quatro primeiros anos do nosso casamento como marido decorativo. Ia nas festas que você arrumava e ficava na rodinha das suas amigas meio de lado, sem assunto. Deixei de ser protagonista da minha vida. Sempre que eu dou uma ideia, você diz que tem uma melhor. Que nem daquela vez que eu queria ir no show do Wesley Safadão (era a gravação do DVD!), mas você me convenceu a ir numa praia artificial na beira do Lago Paranoá… Nunca entendi aquilo.

2) No domingo mesmo, no churrasco, falei pro Gilsinho escrever os nomes do pessoal que ia participar do amigo-oculto numa folha, mas você logo falou que a Solange tinha a letra melhor. Sabia que o Gilsinho era indicação minha, mas nem ligou. A Solange acabou escrevendo os nomes. E eu ainda tirei a chata da Valéria.

3) Eu sou seu marido, mas você ignorou minha posição no dia que entrou um morcego pela janela. Você chamou o seu Jurandir pra capturar o bicho, mesmo eu sendo contra. Você sabe como tenho medo de morcego. É trauma de infância. Custava fazer como eu sugeri? A gente se trancava no quarto e torcia pra ele sair enquanto dormíamos. Mas não, chamou o seu Jurandir. Pra não ser humilhado, tive de me esconder no quartinho de empregada, pro seu Jurandir não achar que sou frouxo. Mas ele sabia que eu já tinha chegado do trabalho, porque nada que acontece no bloco escapa daquele homem.

4) Gentil que sou, converso sim, amor, com muitas mulheres. Acho que gentileza gera gentileza. Dessa forma, fiz várias amizades que já nos ajudaram muito. A Silvana, por exemplo, vem sempre aqui em casa com uma tigela cheia das broas que ela faz, tá toda hora perguntando se a gente não precisa de uma xícara de açúcar, vive dando umas ideias pra redecorar a sala. Mas você parece que implica com a coitada, nem disfarça a antipatia.

Por isso e por muito mais, amor, sinto que já não dá mais. Você não confia em mim, lamento. Fui morar com a Eduarda.

Crônica que publiquei ontem no Correio Braziliense.

Amor por Brasília em detalhes

Brasília
Foto: Joana França

Quando temos a sorte de viver bastante tempo com uma pessoa que amamos, passamos por uma curiosa experiência: os detalhes chamam cada vez mais a atenção dos sentidos. A partir desse ponto, o companheiro não é mais uma figura inteira a ser desvendada, como quando nos apaixonamos. Ele se torna uma coleção de retalhos emocionais que o faz único. O jeito de sorrir, a cara de criança que ele ganha quando olha para baixo, o formato da orelha, o espirro desajeitado, o cheiro, o tom da voz… Se pensarmos bem, essas coisas não poderiam faltar nos álbuns de recordação das relações amorosas.

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Foto: Joana França

Para nossos maridos e mulheres, namorados e namoradas e demais tipos de seres especiais, um álbum desse tipo cabe a nós fazermos. Já para Brasília — essa cidade que amamos e temos a sorte de com ela/nela conviver —, Joana França tem nos ajudado. Não sabe de quem estou falando? Recomendo digitar os termos “Joana”, “França” e “Brasília” no Google e, depois, escolher a opção “imagens”. Ou vá a um dos sites dela: facebook.com/joanafrancafotografia e joanafranca.com. Qualquer um desses caminhos farão saltar aos seus olhos detalhes da capital que logo acenderão afetos em você.

Quem conhece o trabalho da fotógrafa e arquiteta deve concordar comigo que, ao voltar suas lentes para a cidade onde nasceu, Joana conseguiu justamente captar pequenos detalhes que são a cara de Brasília. E ela faz isso com um olhar que só dispensamos aos amados.

Muitas vezes, suas fotos registram apenas o padrão repetitivo e simétrico da fachada de ministérios ou de blocos de superquadra, uma sequência de pilotis ou um cantinho arredondado de um palácio de Niemeyer. Recortes que parecem mostrar pouco a princípio, mas, quando nos damos conta, vemos revelada à nossa frente a alma brasiliense.

Foto: Joana França
Foto: Joana França.

Em outros momentos, Joana amplia o enquadramento, mas só para nos lembrar que, por mais grandiosa que seja esta cidade, ela fica diminuta sob o gigantesco céu que a protege, na verdade, um imenso detalhe que a integra. E monumentos viram enfeites graciosos construídos pelo homem num canto minúsculo do Universo. Nossa casinha em nossa casa maior.

O olhar atento e terno de Joana para edificações e cidades é cada vez mais reconhecido. Suas fotos já são comuns em exposições e publicações especializadas em arquitetura e urbanismo, e não retratam mais apenas a capital federal. Interiores, casas, edifícios e outras cidades têm merecido sua atenção. Mas, para mim, Joana França sempre será a pessoa que construiu o álbum de recordações perfeito da minha história de amor com Brasília.

Crônica que publiquei ontem no Correio Braziliense.

 

Foto: Joana França
Foto: Joana França

Nossa vida comum e épica

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As luzes se apagam, a plateia grita e Morrissey surge no palco. Mais gritos, que se misturam aos primeiros acordes de Suedehead. E os gritos viram um coro de vozes apaixonadas. Também canto alto, enquanto, para minha surpresa, lágrimas escorrem pelo meu rosto. As bochechas molhadas me mostram que não estou ali apenas para ver um antigo ídolo da adolescência que o tempo transformou em lembranças distantes. Não, na noite do último domingo, em uma casa de shows de Brasília, eu tive meu primeiro encontro com um dos caras que, por meio de sua arte, me ajudou a viver. Não é exagero. E, certamente, eu não era o único ali a sentir isso.

Há, claro, vários tipos de fãs de Morrissey, com diferentes motivos para gostar dele e de suas músicas. Eu sou do tipo que chegou à adolescência nos anos 1980 se sentindo diferente e inseguro. Olhava para a maioria dos outros adolescentes e não via lugar para mim entre eles, parecia mais um alienígena sem muita chance de me integrar ao mundo. Mas, então, os discos de uma banda inglesa chamada The Smiths chegaram às minhas mãos, e muitas das músicas deles falavam sobre garotos e garotas cheios de emoção e dor que também se sentiam sozinhos. Eu não era o único, havia muitos outros como eu. Não estava mais só.

Cantor dessa banda, Morrissey se tornou o porta-voz da juventude sensível sem lugar entre os mais populares da escola. E ele mostrava como ser assim não era sinal de que havia algo errado com a gente. Amante da literatura, engajado politicamente e ativista dos direitos dos animais, ele nos convidava, às vezes com ironia, às vezes com tristeza, a contemplar o mundo com um olhar crítico, para concluirmos: se o mundo é isso, quem se ajusta facilmente a ele é que deve ter problemas.

Isso não fez o mundo mudar, mas nos deu força para encará-lo, como heróis anônimos. Nossa vida, por mais comum que seja, é também épica quando vista pelas lentes que Morrissey nos empresta até hoje, em sua carreira solo pós-Smiths, que já dura 27 anos. No domingo, aqui mesmo em Brasília, a cidade em que fui aquele adolescente inseguro, tive mais uma prova de que não estou só. E, ao lado de outros como eu, pude cantar versos como os de Alma matters: “Então a vida que eu construí pode parecer errada para você, mas eu nunca estive tão certo”.

Crônica que publiquei ontem no Correio Braziliense.

Pensando sobre o feminismo e os homens

O jornal O Globo publicou no domingo 8 de novembro uma matéria sobre como alguns homens se sentem tocados pela causa das mulheres, e eu fui um dos entrevistados, por causa do post anterior, o texto ‘Como é ser mulher’. Achei que valia a pena publicar as respostas que enviei por e-mail na íntegra, na esperança de que sejam úteis de alguma forma. Abs!

Algum relato te motivou a escrever o texto?

Nenhum em específico. Mas tudo que aconteceu nessas semanas, a prova do Enem, a votação na Câmara que pode retirar direitos das mulheres, a campanha #primeiroassédio, fez com que eu e alguns amigos conversássemos sobre o tema em uma mesa de bar. Em determinado momento, falávamos sobre como é difícil para os homens saberem o que é estar no lugar de uma mulher, e, nessa hora, eu tive um insight de que eu tinha tido uma pequena mostra disso algumas vezes. Nos dias seguintes, me surpreendi ao perceber que as duas vezes que eu me lembrava de ter sido confundido com uma mulher tiveram como resultado formas de violência que são sempre denunciadas pelas mulheres; no meu caso, o assédio, ou ameaça sexual, e o julgamento apenas pela aparência fora do padrão de beleza. Perceber isso foi um choque, e achei que a experiência merecia ser contada.

No texto, você relata dois tipos de violência. Como foi sentir cada uma delas na pele?

A mais traumática foi a primeira, sem dúvida. Porque eu era criança e senti muito medo. Na época, eu não sabia dizer exatamente qual era o interesse daquele homem, mas intuía que era algo violento, relacionado de alguma forma com a relação entre homem e mulher. Eu me espanto hoje ao lembrar que eu senti tudo o que muitas vítimas desse tipo de abuso relatam. Fiquei envergonhado, achei que tinha alguma coisa errada comigo para ter sido abordado daquele jeito, que é um sentimento de culpa, né? E acho que foi isso que me fez guardar segredo. Tinha muito medo de ter que explicar o que tinha acontecido, porque eu não entendia muito bem por que tinha acontecido, o que significava.

O segundo episódio, quando aconteceu, eu senti menos, porque estava mais velho e me defendi pensando que a menina tinha me achado feio porque pensou que eu era mulher. A reflexão do quão absurdo foi aquele julgamento só fiz agora. Eu, hoje, penso: a pessoa que me julgou “feia” acreditava que eu era uma menina mesmo, sobre a qual ela tinha ouvido falar e tinha curiosidade. Não importou o fato de aquela menina (eu, na verdade) estar demonstrando ser talentosa, estar no palco fazendo a plateia rir. Fulano não podia ter se sentido atraído por aquela figura gorda, feia.

Em vários momentos da minha vida, senti vergonha ou enfrentei brincadeiras de mau gosto por ser gordo, mas, sendo homem, sempre senti que outras qualidades minhas me tornavam interessante e atraente para muitas mulheres. Um homem que não se encaixa no padrão de beleza certamente sofre, tem sua autoestima abalada. Eu tive. Mas, em geral, as pessoas são muito mais generosas com esse homem do que com uma mulher que não é bonita segundo o padrão do momento.

Qual que deve ser o papel dos homens num movimento de protagonismo das mulheres na sua opinião?

Essa é uma pergunta sobre a qual reflito muito e sobre a qual não tenho muitas certezas. O que eu tenho certeza é que nosso envolvimento deve, acima de tudo, respeitar o desejo das mulheres. O quanto elas nos querem envolvidos? De que forma elas querem que participemos? O complicado disso é que, dentro do próprio movimento feminista, há visões diferentes sobre a resposta para essas perguntas. Há feministas que não acreditam que os homens, por sua posição privilegiada e atitudes opressoras, possam ajudar de alguma forma. Quando descobri isso, fiquei um pouco abalado, eu confesso, mas eu entendo esse ponto de vista. Eu nunca chegaria para uma feminista com essa visão e diria: “Você está errada”. Porque acho que ela teria todo o direito de dizer: “Você acha que realmente sabe alguma coisa sobre o que é ser mulher só porque foi confundido com uma duas vezes na vida?”

Porém, como eu realmente acredito que devemos nos esforçar por uma relação entre gêneros igualitária, eu busco fazer minha parte da melhor forma, que é, antes de tudo, prestando atenção no que as mulheres dizem. Eu busco eliminar atos machistas vindos de mim, tanto no dia a dia quanto na relação com minha namorada, amigas e familiares. Também busco ouvir. Acho que nós homens estamos acostumados a interromper as mulheres, porque, de certa forma, aprendemos desde crianças que é assim mesmo, que assuntos sérios são um domínio masculino. E tudo isso é um exercício difícil. Vira e mexe ouço da minha namorada que eu disse algo machista, que estou vendo um determinado episódio sob um ângulo machista. Fico meio mal. Até reajo, negando que não fui machista não. Vaidade, né? Mas leio, ouço, converso e vou aprendendo. Hoje, acho que sei agir de forma mais igualitária com as mulheres graças a esse esforço. Talvez, taí!, o melhor jeito de os homens apoiarem o movimento é se esforçando, sinceramente, para aceitarem o papel de aprendizes desse movimento. Temos de ser alunos das mulheres. Alunos, veja bem, têm direito à voz, à reflexão, a questionamentos. Ou seja, não seremos passivos, mas temos de saber que a igualdade entre gêneros só será alcançada se aprendermos com as mulheres onde está a desigualdade, o que precisa ser mudado. E são elas que podem nos ensinar, porque são elas que sentem os efeitos da desigualdade. Se realizarmos esse movimento, de nos colocarmos como aprendizes (e veja que pra homens em uma sociedade machista isso é difícil pacas), teremos dado o primeiro passo para sermos reais colaboradores.

Acredita que o engajamento dos homens pode ajudar a conscientizar outros sobre lutas feministas?

Essa sua pergunta me permite falar mais sobre qual a postura que decidi adotar recentemente sobre o feminismo. Quando o assunto vem à tona, ou quando há um comentário machista ou de crítica ao feminismo, eu espero um pouco para ver se alguma mulher presente vai se posicionar. Se ela o fizer, terá em mim um aliado, que intervirá apenas para reforçar seu ponto de vista, ajudando-a no debate. É uma das formas que achei de respeitar o protagonismo feminino e apoiar ao mesmo tempo. Se ninguém se posicionar, o que ainda é comum, porque muitas mulheres ainda se sentem intimidadas de expor o que pensam, eu falo. Às vezes, quando eu falo, algumas que tinham ficado quietas se encorajam e acabam falando também, ou demonstram de alguma forma que concordam comigo.

Eu gosto de acreditar que o engajamento dos homens pode ajudar, porque outros homens podem se surpreender ao ver que a defesa das ideias feministas está sendo feita por outro homem e não por uma mulher que ele pode taxar de “feminazi” ou qualquer outro termo depreciativo. E pode fazer com que outros homens que sentem tendência a apoiar a causa se sintam mais encorajados a fazê-lo. Agora, é claro que às vezes dá um desânimo. Porque vejo que muitos homens olham para mim com desconfiança, imaginando que deve ter alguma coisa errada comigo pra que eu seja um defensor do feminismo. É a forma de eles continuarem criando uma barreira a essas ideias. Mas acho que devemos insistir, porque nós podemos ser um exemplo de empatia. Eu sinto que há um efeito quando um homem ouve o outro dizer: “Mas olha, se coloca no lugar da mulher. Imagine que você saia pra fazer uma caminhada e comece a ser perseguido por uma pessoa muito mais forte que você e aparentemente disposta a te forçar a fazer algo que você não queira. Agora, imagine que isso aconteça com muita frequência. Imagine o quanto você acharia horrível que a pessoa estivesse te amedrontando só pra se divertir, sem intenção de te fazer mal de verdade. Ou imagine que algumas dessas pessoas realmente te imobilizassem ou passasseem a mão no seu corpo sem sua permissão.” Da mesma forma, podemos estimulá-los a se colocar no lugar das mulheres no trabalho, no casamento, no cuidado com os filhos, na hora de receber um salário menor, na exposição à violência sexual e doméstica. O mundo precisa de empatia. Homens precisam se colocar no lugar das mulheres; brancos, no de negros; ricos, no de pobres; patrões e patroas, no lugar das empregadas domésticas; heterossexuais, no lugar dos homossexuais etc. etc. etc.

Como é ser mulher

Eu tinha 10 anos. Passava férias em Fortaleza com minha família, e, certa manhã, saí sozinho para comprar uma bola de frescobol em uma loja a dois quarteirões dali. Quando voltava, já quase em frente ao hotel, um homem encostado no capô de um carro me chamou. “Ei, vem cá.” Parei e olhei pra ele. “Vem cá”, insistiu, e eu senti medo. Aquele homem me olhava de um jeito estranho, não parecia gostar de mim, mas me queria mais perto dele. Gaguejei que não podia. “Meu pai tá me esperando aqui”, consegui dizer, apontando a entrada do hotel. “Ah, seu pai. Então tá, pode ir.” Eu me virei e apertei o passo, mas ainda deu tempo de ouvir: “Você é muito gostosinha, sabia?”

Aquela frase fez com que o medo crescesse, e eu disparei a correr. Passei o resto do dia calado e tentando disfarçar que estava tudo bem, porque a última coisa que eu queria era ter de contar para alguém o que tinha acontecido. O medo se misturou com a vergonha. Ele achou que eu era menina, pensava às vezes. E depois me indagava, apavorado: o que será que ele teria feito comigo se eu tivesse ido até ele?

A vergonha que senti por esse momento fez com que essa história permanecesse um segredo por anos. Só na adolescência, por volta dos 16, 17 anos, senti segurança para contá-la a uma amiga, que tinha acabado de viver algo semelhante. Ela tinha 14 anos. Depois disso, contei para outros poucos amigos e amigas. Ainda agora, me pergunto se vou mesmo publicar este texto.

Os anos se passaram e eu me interessei pelo teatro. Em Brasília, já acontecia o Jogo de Cena, mostra artística que reúne pequenas apresentações de música, dança, teatro, artes plásticas. Um dos quadros era o Desafio da Noite, do qual adorava participar. As equipes recebiam um tema e tinham de apresentar um esquete a partir dele. Um dia, uma dupla de amigos — Paula e Carlos — havia se inscrito, mas Paula desistiu. Entrei em seu lugar e, quando viram aquela figura imberbe, gordinha e de cabelos meio crescidos, algumas pessoas acreditaram que eu realmente fosse Paula, como o apresentador tinha anunciado.

Dias depois, meus amigos riam da história, porque uma menina, que estava curiosa para saber quem era a tal Paula, que tinha ficado com Fulano, não acreditou quando me viu no palco. Ela tinha pensado: “Não acredito que Fulano quis ficar com essa gorda”. Nesse caso, a confusão não me deixou mal como da primeira vez. Tinha me transformado num adolescente que gostava de provocar e deixar as pessoas confusas, era um rebelde. Ri também.

Hoje, porém, percebo que, das duas vezes em que soube que alguém havia me confundido com uma mulher, fui, primeiro, sexualmente ameaçado, e, depois, tive minha aparência criticada. Minha experiência como mulher, então, foi a seguinte: eu estava feliz, fazendo coisas de que gostava, e, de repente, apareceu um estranho que me agrediu de alguma forma. Foi muito sofrido ser mulher, e só tive de sê-lo por duas vezes. Imagino como seja cansativo, amedrontador e, por isso, revoltante, ser mulher a vida inteira nesse mundo nosso. Esse mundo nosso precisa mudar. Nós precisamos mudar e parar de estragar a felicidade de mulheres. E é tão simples. Basta que as deixemos em paz, livres.

Sempre entre uma minoria

“Sabe no que estava pensando? Estava pensando em uma coisa muito triste, sabe que eu… mesmo em uma sociedade mais decente que esta… estarei sempre entre uma minoria de pessoas. Mas o caso é que não é como acontece nos filmes… em que o homem e a mulher se olham e brigam… numa ilha deserta porque o diretor não acredita nas pessoas. Eu acredito nas pessoas, mas não na maioria delas. Acho que sempre me entrosarei melhor com uma minoria.”

Claudio Assis mereceu as vaias em Brasília

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Primeiro, é importante que se leia a brilhante reportagem de Carolina Nogueira na AzMina sobre o episódio que motivou as vaias ao diretor pernambucano Claudio Assis no festival de cinema de Brasília. A jornalista conseguiu narrar o episódio e escolher as fontes certas para explicar por que Assis e seu colega Lírio Ferreira agiram sob a benção do machismo na ocasião que lhes rendeu as críticas. Dificilmente alguém faria melhor que Nogueira esse trabalho de pegar o leitor pela mão e mostrar: “Olha, o machismo está tão impregnado na sociedade que essas coisas que parecem banais, naturais, um acidente até, são no fundo, expressão do machismo”.

Lido o texto de Carolina, talvez minhas reflexões ainda sirvam de alguma coisa. Escrevo apenas porque percebi que muitos adoraram o discurso de Assis no dia da premiação do festival, em que seu ‘Big Jato’ foi vencedor de diversas categorias (discurso proferido após a publicação da matéria na AzMina). Na boa (vou deixar logo claro meu ponto de vista), quem gostou do que Assis falou é porque não gosta do feminismo, tem problemas com ele, e está louco para permanecer na sua zona de conforto, que é a sociedade machista em que nos acostumamos a viver.

No discurso, o diretor começa se posicionando como um cara que vê as coisas de cima: “Eu já vaiei e fui vaiado. A vaia é muito bacana. Eu aplaudo quem tá vaiando”. Mas logo mostra que a altura alcançada por seu olhar não é suficiente para incluir a si mesmo no enquadramento. Não… “Mas a vaia tem de ser inteligente”, emenda, antes de chamar seus críticos de fascistas, porque o “tentam calar”.

Confesso que, quando Assis começou o discurso, elogiando as vaias, pensei que viria ali um pedido de desculpas por ser machista. A esperança apareceu em mim. Mas não. A vaia é bacana, mas não a vaia burra, ou seja, a dirigida a ele. O episódio em que o seu machismo ficou evidenciado, pelo jeito, não lhe ensinou muito. Segundos depois de chamar os críticos de fascistas por tentarem calá-lo, Assis responde a um homem que grita “Então, melhora” da seguinte forma: “Fica calado, babaca.” E parte para a desqualificação da plateia que vaia: “Vocês vaiaram aqui Rodrigo Santoro (…) só porque ele era da Malhação. (…) Vaiaram aqui Vladimir Carvalho”. E, depois, se coloca no papel da vítima: “Você não sabe o que aconteceu, o que está acontecendo. Estou sendo apedrejado. Você não tem ideia, e, um dia, eu vou dizer, porque eu não sou mau caráter. Posso ser bêbado, doido, machista, o que for, mas não é isso que tá acontecendo.” E conclui: “Eu não falo o que sei porque eu SOU HOMEM” ( as letras maiúsculas servem tanto para mostrar que nessa hora ele se exaltou ainda mais quanto para chamar a atenção para a ironia inconsciente das últimas palavras escolhidas pelo diretor para encerrar seu desabafo).

Está bem, vamos lá. O argumento final de Assis é que há algo maior por trás de seu “apedrejamento”. Algo que ele sabe, mas nós não sabemos, mas que ele pode suportar o peso de saber e não revelar porque é homem. Vamos partir do princípio de que, sim, há interesses em denegrir sua imagem e que esses interessados estão usando o episódio com Anna Muylaert para atingi-lo. OK. Porém, não é por isso que aquelas pessoas ali o estavam vaiando. Elas vaiavam sua atitude machista. Elas tinham a intenção de dar um recado claro: para elas, o machismo já deu, basta. Manifestações machistas não serão ignoradas, serão lembradas, apontadas, denunciadas, ou, como alguns gritaram, “não passarão”.

O mais dramático do episódio é que Assis, pelo cinema que produz, se sente injustiçado. Ele? Logo ele, que, quando faz cinema, pensa em denunciar realidades injustas, inclusive o machismo, vira o machista da vez a ser atacado? Como assim? E aí parece se tornar muito difícil para ele aceitar que é um machista digno de vaias. Ele gosta das vaias como conceito, mas aquelas que ele ouve são burras, como foram as para Santoro e Carvalho. E, no auge de sua defesa, até admite ser machista, assim como bêbado (por sinal, a desculpa usada por ter sido inconveniente com Muylaert) e porra louca, mas não mau caráter. Mas ninguém o vaiou por ser mau caráter, apenas por ser machista. E ao dizer “posso até ser machista” foge do pedido de desculpas, do reconhecimento do erro, como que para torná-lo pequeno, insignificante.

Um argumento que li em defesa de Assis é o de que todos somos machistas. Entendo esse argumento como uma tentativa de aliviar a pressão sobre Assis, porque ela deveria ser dividida por todos nós. Sim, somos todos machistas. Então, que nos preparemos para recebermos vaias, críticas, reprimendas quando agirmos de maneira machista. Isso se chama educação. Eu me incomodo com casos de bodes expiatórios. Quando uma torcedora é filmada chamando um jogador de futebol de macaco, sendo que milhares de pessoas estão fazendo o mesmo, e ela sozinha se torna a única racista do Brasil, me incomoda. Me incomoda ainda mais ver pessoas que nunca questionaram o próprio racismo achar que podem apedrejar a menina em praça pública, como se eles fossem puros, e ela, o demônio. Casos assim não nos ajudam. Achamos que punimos a racista e esquecemos de olhar para nosso próprio racismo. E, assim, seguimos racistas.

O episódio com Claudio Assis é diferente. Primeiro, porque muita gente, muita gente, não acha que ele merece vaia e se manifestou dessa forma no festival. Depois, porque ele é o diretor de, entre outros, ‘Baixio das Bestas’, um filme duro que mostra como as mulheres são exploradas da maneira mais cruel. E, mesmo assim, ele é machista. A vaia a ele nos educa, porque nos serve de alerta. O machismo está tão emprenhado, tão naturalizado, que nem cineastas inteligentes como Assis deixam de praticá-lo. E parte da plateia do Cine Brasília só lembrou a ele que, sinto muito, não foi um pilequinho besta, um mico inofensivo de bêbado. Foi ofensivo, agressivo, silenciador das mulheres, e, por isso, vai ter vaia. Por isso, você vai ser vaiado hoje. Não vai ser vaiado para sempre, mas não vamos, neste momento, passar a mão na sua cabeça, só porque você é um diretor porra louca genial. Hoje, você vai ouvir. O caso de Assis revela a força do machismo. Você pode sentar e escrever um roteiro atento ao machismo, buscando denunciá-lo, mas livrar-se mesmo do machismo no cotidiano, no trato com o outro, isso é muito mais difícil. Basta uma cervejinha pra ele se manifestar, basta começar uma defesa emocionada que logo vem o grito: “porque eu SOU HOMEM!”

Se pudesse, eu rescreveria o discurso de Assis na noite de entrega de prêmios. Primeiro, pediria um voto de confiança dos críticos para que me ouvissem por um instante. Depois, começaria dizendo que aplaudo quem me vaia, porque mereço a vaia. Que a vaia me mostra que, apesar de me considerar esclarecido, atento, a ponto de discutir o machismo cruel em meu cinema, não consegui me livrar das atitudes que nos parecem ser tão naturais só porque somos homens. Por ser homem, posso roubar a cena, falar o que me vier à telha, sem nem lembrar que estou ali para ouvir o que outra pessoa tem a dizer, especialmente se a outra pessoa for mulher. E que, por isso, peço desculpas.

Com um discurso assim, talvez, pudéssemos voltar a prestar atenção em seu cinema, muito valioso, mais cedo. Mas descer do pedestal dessa forma não é fácil para nós, que somos homens. Infelizmente. O feminismo me desafia porque ele, o tempo todo, me lembra que eu preciso ouvir as mulheres, ouvir mesmo, em silêncio e com atenção e empatia. Assumir essa posição que nunca disseram que cabia a mim. Tomara que eu saiba reconhecer a vaia que me vier de forma merecida no dia que ela surgir. Torço para ser capaz, porque sei que não é fácil desaprender.

Curiosamente, foi quando percebi isso, que ainda preciso desaprender muito, que comecei a questionar se posso me dizer feminista. Hoje, tenho medo de que minha postura antiga, de me dizer feminista, era algo semelhante ao que Assis fez: um homem tentando roubar o protagonismo da mulher, sem saber direito o que está fazendo. Hoje, me digo um apoiador do feminismo, mas sei que ele deve ser protagonizado pelas mulheres, por elas. Se há feministas ao meu lado, busco, hoje em dia, fazer o exercício de falar menos e ouvir mais. Tomei pra mim que só devo me pronunciar pelo feminismo se, no ambiente em que eu estiver, ninguém o fizer. E, para meu lamento, isso é bem comum. Às vezes, num ambiente repleto de mulheres, uma fala machista é pronunciada sem maiores consequências e percebo que, se eu não falar nada, ela passará incólume, sem vaia. Aí, nessa hora, viro feminista e vaio. Porque vaias são necessárias.