Tentando vencer os melhores

Cedo, aprendi uma importante lição. Foi com meu tio Manoel. Eu, garotinho, mostrava orgulhoso um desenho que havia feito, elogiado pela tia da escola, mas sua análise era implacável: “Tá bonito, mas não é nenhum Monet”. A mesma coisa, um pouco mais tarde, com as redações, também festejadas pelas professoras: “É… mas não chega a ser um Machado de Assis”. Pode parecer, para o caro leitor, que tio Manoel era um adulto cruel — e seu notório mau humor, que lhe deu o apelido de Maisena (porque engrossava fácil), poderia servir como mais um indício —, mas não vejo assim. Com seu controverso método, ele tentava me preparar para um fato inexorável da vida: sempre estamos prestes a encontrar pessoas melhores que a gente por aí, por mais que nos achemos bons no que fazemos.

Criança, eu não sabia quem era Monet ou Machado, mas entendia que eles estavam em um nível bem acima do meu, mesmo que as tias falassem de um jeito que me fazia acreditar ser o melhor do mundo. Depois, as evidências da minha mediocridade começaram a ficar mais claras. Eu não ganhava uma partida sequer do Fernando no futebol de botão, o Marcelinho nunca era pego no pique-esconde, o Vinícius era um ás da bicicleta, e a Rô, minha irmã, jogava bete melhor que os moleques da quadra — até aparecer o Mario Zan, um garoto batizado em homenagem ao famoso acordeonista que “zunia” a bolinha com um mero cabo de vassoura (a regra do “outro melhor” existia também para a Rô, deduzi nesse dia).

O tempo passou e, na adolescência, acreditei que finalmente tinha encontrado uma habilidade na qual ninguém poderia me superar: eu era muito engraçado. Nos almoços de família, nas mesas de lanchonete e até mesmo no meio da rua, o povo parava para ouvir e gargalhar das besteiras que eu falava. Resolvi, então, mostrar esse talento para um público maior, no Jogo de Cena, a tradicional mostra de artes de Brasília que existe há uns bons 30 anos.

Inscrevi-me no quadro Desafio da Noite, no qual tínhamos de improvisar uma cena a partir de um tema dado na hora pela produção. Como esperava, o povo morreu de rir de mim e de meu parceiro de esquete. Mas riu bem mais de dois caras que se apresentaram depois. Malditos! Não me dei por vencido e voltei no Jogo seguinte. Fiz o povo rir ainda mais, mas, na hora de votar em quem tinha sido melhor, a plateia, outra vez, preferiu aquela dupla de engraçadinhos. E a cena se repetiu tantas outras vezes. Mesmo no dia em que tínhamos de convencer as pessoas de que dois mais dois são cinco, e eu as convenci ao encarnar um hipnotizador!, um daqueles dois carrascos me apareceu com uma imitação da então ministra da Economia, Zélia Cardoso, e me venceu. Mais uma vez.

Certa noite, determinado, dei tudo de mim. Durante uma cena, me joguei no chão, dei cambalhotas, gritei e arranquei muitas, muitas risadas da audiência. Nesse dia, finalmente, venci! Mas o extenso placar de derrotas, que faria o vexame da Seleção Brasileira diante da Alemanha parecer coisa de criança, me fez lembrar das lições do tio Manoel. Eu era engraçado, mas não era o melhor do mundo. Os Melhores do Mundo, todos saberíamos anos depois, eram mesmo aqueles dois talentos do humor que sempre me venciam e atendiam pelo nome de Welder e Pipo.

PS: Welder e Pipo, vocês são muito bons, mas não chegam a ser um Monty Python, ok?

Crônica que publiquei ontem no Correio Braziliense.

E vejam com quem eu estava competindo…

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2 Responses to “Tentando vencer os melhores”


  1. 1 Marina 04/02/2016 às 10:31

    Dagô, adorei!! Divertido como você só! E melhor, mais próximo e humano como eu e a maioria dos mortais.

    Beijos

    Pati


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