Apartamentos acesos e vivos

balaio praça dos prazeres

Balaio Café / Praça dos Prazeres (201 Norte). Foto: João Sassi

Dia desses, tive um medo pior que o de morrer: o de não ter existido. Foi lendo Entrevistas, livro que reúne conversas de Clarice Lispector com diversas personalidades brasileiras, publicadas nas revistas Manchete, entre 1968 e 1969, e Fatos e Fotos: Gente, entre 1976 e 1977. Eu percorria a obra de acordo com o interesse pelos entrevistados. Já havia passado pelos bate-papos com Nelson Rodrigues, Chico Buarque, MillIôr Fernandes e Vinícius de Moraes quando cheguei a Oscar Niemeyer. E aí caiu a ficha: Brasília por pouco não existiu. Antes de ser construída, a cidade era uma ideia absurda para muitos. E, mesmo depois de inaugurada, quase foi abandonada, já que muitos queriam manter a capital no Rio.

Brasília era ainda uma criança quando Clarice entrevistou Niemeyer. Para a escritora, o Plano Piloto era um grande vazio, verdadeiro símbolo da morte. Em dado momento, ela indagou ao mestre arquiteto: “Por que você acha que escrevi: ‘Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer’”? E Niemeyer disse: “Porque Brasília lhe parece uma cidade sem vida. (…) Quando Le Corbusier comentou que Brasília estava ameaçada de abandono pelo governo de Castelo Branco, ele respondeu: ‘Será uma pena! Mas que belas ruínas teremos’”.

Que visão assustadora, angustiante, imaginar a capital um monte de destroços, como diz Caetano em Fora da ordem — “Aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína”. Imaginei-me, primeiro, personagem de um filme insólito, andando solitário por ruínas monumentais. Depois, percebi que, sem a cidade, não seria o que sou, e talvez não fosse nada.

A conversa entre os dois artistas me tornou consciente de uma grande responsabilidade que temos, nós brasilienses, por nascença ou opção. É nosso dever dar vida a uma cidade que nasceu antes de viver, porque nasceu quase sem gente. Quando insistimos em habitar esse pedaço de cerrado, cravando nele histórias, paixões e lugares preferidos, injetamos carne, sangue e coração em seu majestoso esqueleto.

A entrevista também me ajudou a entender por que sempre me emociono quando ouço Renato Russo cantar: “E você passa de noite e sempre vê apartamentos acesos”. Por algum motivo que não sabia explicar, sempre achei esse verso a cara de Brasília, mesmo que a cena descrita nele possa ser vista em qualquer cidade. Agora eu sei. É que a claridade saindo das janelas e rompendo a escuridão das superquadras é vida que insiste em brotar. Assim como também é vida a música e a arte que, hoje, alguns tentam silenciar. Amigos, não esqueçamos a nossa responsabilidade. Não deixemos, por radicalismos, morrer a cidade que tanto lutou para nascer.

Crônica publicada no Correio Braziliense em 25 de dezembro de 2015.

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2 Responses to “Apartamentos acesos e vivos”


  1. 1 Maria Helena 04/01/2016 às 12:33

    Oi Beto. Eu, marina e Mila acabamos de ler o seu texto e nos emocionais. Beijos


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