Lembrança de Júpiter

Quando fiquei amigo de uma turma de gaúchos que habita Brasília, logo notei que eles até achavam o rock dos anos 1980 e 1990 da nossa cidade bom, mas legal mesmo, “afudê”, eram as bandas de Porto Alegre e adjacências. Uma mistura de orgulho e lembranças bacanas fazia os olhos dessas pessoas brilharem quando elas falavam de Replicantes, TNT, Os Cascavelettes, Graforréia Xilarmônica e tantos outros artistas que forjaram a identidade jovem do Rio Grande. Eu até concordava que o excesso de seriedade da Turma da Colina podia soar bobo passado um tempo, mas não engolia bem a infantilidade e o machismo que reparava da produção sulista.

Porém, para quem nasceu em uma cidade que, de maneira geral, só presta atenção nos músicos locais quando eles ganham reconhecimento nacional — “nossa, eles são de Brasília?!” —, ver a paixão dos gaudérios por artistas que não eram muito famosos no resto do país me deixava admirado e curioso. Gostaria de ver alguns desses heróis dos pampas em ação, pensava.

A chance veio no comecinho dos anos 2000, quando o saudoso Gate’s Pub abriu espaço para o rock independente, graças ao empenho de um de seus sócios, Rubens Carvalho. O bar da 403 Sul virou o lugar mais amado pelos roqueiros da cidade, que iam lá por causa das festas, da Quarta Vinil e das memoráveis Noites Senhor F, que o jornalista Fernando Rosa (outro gaúcho radicado no Plano Piloto) organizava. As Noites abriram espaço para dezenas de bandas brasilienses, mas também foram responsáveis pelos primeiros shows na cidade de vários artistas de fora, incluindo os do Sul, como Cachorro Grande, a própria Graforréia e Frank Jorge.

Em maio de 2005, Fernando montou uma edição especial do evento, uma Super Noite Senhor F, que reuniu, em dois dias, oito bandas, tendo no encerramento, cereja do bolo, Júpiter Maçã, nome artístico de Flávio Basso, fundador do TNT e dos Cascavelettes. Eu não podia perder essa estreia do músico na capital, até porque tinha sido escalado para abrir a noite (sim, como quase todo mundo em Brasília, eu também sempre tive banda).

Ficava imaginando como seria o sujeito, aparente encarnação da irreverência e do non-sense, e me surpreendi quando fui apresentado a ele na passagem de som. Ele me pareceu doce e simpático. Foi na hora do show, porém, que a força de Júpiter ficou clara. Para um Gate’s bem cheio, ele desfilou composições tão criativas quanto originais, que me pareceram bem melhores que as do início de carreira, ora o retrato de uma grande parte da juventude, ora uma viagem tropicalista irônica, boa descrição para ‘A marchinha psicótica do Dr. Soup’.

Inesquecível, contudo, foi o momento em que, empolgado, emocionado, enlouquecido, o público cantou com ele a canção que capta tão bem o desejo que se tem quando se é novo e se ama o rock: “Eu preciso encontrar / Um lugar legal pra mim / Dançar e me escabelar / Tem que ter um som legal / Tem que ter gente legal / E ter cerveja barata”. Impossível não se render a um artista que cria um hino. Não é qualquer um que consegue isso. Naquela noite, o Gate’s Pub foi o título dessa canção: ‘Um lugar do caralho’.

Anteontem, Júpiter morreu, aos 47 anos, em Porto Alegre, depois de sofrer um acidente em casa. Deixa milhares de admiradores, hoje espalhados muito além das fronteiras gaúchas. Valeu, Júpiter.

Crônica publicada no Correio Braziliense em 23 de dezembro.

E o hino:

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