Nossa vida comum e épica

morrissey

As luzes se apagam, a plateia grita e Morrissey surge no palco. Mais gritos, que se misturam aos primeiros acordes de Suedehead. E os gritos viram um coro de vozes apaixonadas. Também canto alto, enquanto, para minha surpresa, lágrimas escorrem pelo meu rosto. As bochechas molhadas me mostram que não estou ali apenas para ver um antigo ídolo da adolescência que o tempo transformou em lembranças distantes. Não, na noite do último domingo, em uma casa de shows de Brasília, eu tive meu primeiro encontro com um dos caras que, por meio de sua arte, me ajudou a viver. Não é exagero. E, certamente, eu não era o único ali a sentir isso.

Há, claro, vários tipos de fãs de Morrissey, com diferentes motivos para gostar dele e de suas músicas. Eu sou do tipo que chegou à adolescência nos anos 1980 se sentindo diferente e inseguro. Olhava para a maioria dos outros adolescentes e não via lugar para mim entre eles, parecia mais um alienígena sem muita chance de me integrar ao mundo. Mas, então, os discos de uma banda inglesa chamada The Smiths chegaram às minhas mãos, e muitas das músicas deles falavam sobre garotos e garotas cheios de emoção e dor que também se sentiam sozinhos. Eu não era o único, havia muitos outros como eu. Não estava mais só.

Cantor dessa banda, Morrissey se tornou o porta-voz da juventude sensível sem lugar entre os mais populares da escola. E ele mostrava como ser assim não era sinal de que havia algo errado com a gente. Amante da literatura, engajado politicamente e ativista dos direitos dos animais, ele nos convidava, às vezes com ironia, às vezes com tristeza, a contemplar o mundo com um olhar crítico, para concluirmos: se o mundo é isso, quem se ajusta facilmente a ele é que deve ter problemas.

Isso não fez o mundo mudar, mas nos deu força para encará-lo, como heróis anônimos. Nossa vida, por mais comum que seja, é também épica quando vista pelas lentes que Morrissey nos empresta até hoje, em sua carreira solo pós-Smiths, que já dura 27 anos. No domingo, aqui mesmo em Brasília, a cidade em que fui aquele adolescente inseguro, tive mais uma prova de que não estou só. E, ao lado de outros como eu, pude cantar versos como os de Alma matters: “Então a vida que eu construí pode parecer errada para você, mas eu nunca estive tão certo”.

Crônica que publiquei ontem no Correio Braziliense.

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