Pensando sobre o feminismo e os homens

O jornal O Globo publicou no domingo 8 de novembro uma matéria sobre como alguns homens se sentem tocados pela causa das mulheres, e eu fui um dos entrevistados, por causa do post anterior, o texto ‘Como é ser mulher’. Achei que valia a pena publicar as respostas que enviei por e-mail na íntegra, na esperança de que sejam úteis de alguma forma. Abs!

Algum relato te motivou a escrever o texto?

Nenhum em específico. Mas tudo que aconteceu nessas semanas, a prova do Enem, a votação na Câmara que pode retirar direitos das mulheres, a campanha #primeiroassédio, fez com que eu e alguns amigos conversássemos sobre o tema em uma mesa de bar. Em determinado momento, falávamos sobre como é difícil para os homens saberem o que é estar no lugar de uma mulher, e, nessa hora, eu tive um insight de que eu tinha tido uma pequena mostra disso algumas vezes. Nos dias seguintes, me surpreendi ao perceber que as duas vezes que eu me lembrava de ter sido confundido com uma mulher tiveram como resultado formas de violência que são sempre denunciadas pelas mulheres; no meu caso, o assédio, ou ameaça sexual, e o julgamento apenas pela aparência fora do padrão de beleza. Perceber isso foi um choque, e achei que a experiência merecia ser contada.

No texto, você relata dois tipos de violência. Como foi sentir cada uma delas na pele?

A mais traumática foi a primeira, sem dúvida. Porque eu era criança e senti muito medo. Na época, eu não sabia dizer exatamente qual era o interesse daquele homem, mas intuía que era algo violento, relacionado de alguma forma com a relação entre homem e mulher. Eu me espanto hoje ao lembrar que eu senti tudo o que muitas vítimas desse tipo de abuso relatam. Fiquei envergonhado, achei que tinha alguma coisa errada comigo para ter sido abordado daquele jeito, que é um sentimento de culpa, né? E acho que foi isso que me fez guardar segredo. Tinha muito medo de ter que explicar o que tinha acontecido, porque eu não entendia muito bem por que tinha acontecido, o que significava.

O segundo episódio, quando aconteceu, eu senti menos, porque estava mais velho e me defendi pensando que a menina tinha me achado feio porque pensou que eu era mulher. A reflexão do quão absurdo foi aquele julgamento só fiz agora. Eu, hoje, penso: a pessoa que me julgou “feia” acreditava que eu era uma menina mesmo, sobre a qual ela tinha ouvido falar e tinha curiosidade. Não importou o fato de aquela menina (eu, na verdade) estar demonstrando ser talentosa, estar no palco fazendo a plateia rir. Fulano não podia ter se sentido atraído por aquela figura gorda, feia.

Em vários momentos da minha vida, senti vergonha ou enfrentei brincadeiras de mau gosto por ser gordo, mas, sendo homem, sempre senti que outras qualidades minhas me tornavam interessante e atraente para muitas mulheres. Um homem que não se encaixa no padrão de beleza certamente sofre, tem sua autoestima abalada. Eu tive. Mas, em geral, as pessoas são muito mais generosas com esse homem do que com uma mulher que não é bonita segundo o padrão do momento.

Qual que deve ser o papel dos homens num movimento de protagonismo das mulheres na sua opinião?

Essa é uma pergunta sobre a qual reflito muito e sobre a qual não tenho muitas certezas. O que eu tenho certeza é que nosso envolvimento deve, acima de tudo, respeitar o desejo das mulheres. O quanto elas nos querem envolvidos? De que forma elas querem que participemos? O complicado disso é que, dentro do próprio movimento feminista, há visões diferentes sobre a resposta para essas perguntas. Há feministas que não acreditam que os homens, por sua posição privilegiada e atitudes opressoras, possam ajudar de alguma forma. Quando descobri isso, fiquei um pouco abalado, eu confesso, mas eu entendo esse ponto de vista. Eu nunca chegaria para uma feminista com essa visão e diria: “Você está errada”. Porque acho que ela teria todo o direito de dizer: “Você acha que realmente sabe alguma coisa sobre o que é ser mulher só porque foi confundido com uma duas vezes na vida?”

Porém, como eu realmente acredito que devemos nos esforçar por uma relação entre gêneros igualitária, eu busco fazer minha parte da melhor forma, que é, antes de tudo, prestando atenção no que as mulheres dizem. Eu busco eliminar atos machistas vindos de mim, tanto no dia a dia quanto na relação com minha namorada, amigas e familiares. Também busco ouvir. Acho que nós homens estamos acostumados a interromper as mulheres, porque, de certa forma, aprendemos desde crianças que é assim mesmo, que assuntos sérios são um domínio masculino. E tudo isso é um exercício difícil. Vira e mexe ouço da minha namorada que eu disse algo machista, que estou vendo um determinado episódio sob um ângulo machista. Fico meio mal. Até reajo, negando que não fui machista não. Vaidade, né? Mas leio, ouço, converso e vou aprendendo. Hoje, acho que sei agir de forma mais igualitária com as mulheres graças a esse esforço. Talvez, taí!, o melhor jeito de os homens apoiarem o movimento é se esforçando, sinceramente, para aceitarem o papel de aprendizes desse movimento. Temos de ser alunos das mulheres. Alunos, veja bem, têm direito à voz, à reflexão, a questionamentos. Ou seja, não seremos passivos, mas temos de saber que a igualdade entre gêneros só será alcançada se aprendermos com as mulheres onde está a desigualdade, o que precisa ser mudado. E são elas que podem nos ensinar, porque são elas que sentem os efeitos da desigualdade. Se realizarmos esse movimento, de nos colocarmos como aprendizes (e veja que pra homens em uma sociedade machista isso é difícil pacas), teremos dado o primeiro passo para sermos reais colaboradores.

Acredita que o engajamento dos homens pode ajudar a conscientizar outros sobre lutas feministas?

Essa sua pergunta me permite falar mais sobre qual a postura que decidi adotar recentemente sobre o feminismo. Quando o assunto vem à tona, ou quando há um comentário machista ou de crítica ao feminismo, eu espero um pouco para ver se alguma mulher presente vai se posicionar. Se ela o fizer, terá em mim um aliado, que intervirá apenas para reforçar seu ponto de vista, ajudando-a no debate. É uma das formas que achei de respeitar o protagonismo feminino e apoiar ao mesmo tempo. Se ninguém se posicionar, o que ainda é comum, porque muitas mulheres ainda se sentem intimidadas de expor o que pensam, eu falo. Às vezes, quando eu falo, algumas que tinham ficado quietas se encorajam e acabam falando também, ou demonstram de alguma forma que concordam comigo.

Eu gosto de acreditar que o engajamento dos homens pode ajudar, porque outros homens podem se surpreender ao ver que a defesa das ideias feministas está sendo feita por outro homem e não por uma mulher que ele pode taxar de “feminazi” ou qualquer outro termo depreciativo. E pode fazer com que outros homens que sentem tendência a apoiar a causa se sintam mais encorajados a fazê-lo. Agora, é claro que às vezes dá um desânimo. Porque vejo que muitos homens olham para mim com desconfiança, imaginando que deve ter alguma coisa errada comigo pra que eu seja um defensor do feminismo. É a forma de eles continuarem criando uma barreira a essas ideias. Mas acho que devemos insistir, porque nós podemos ser um exemplo de empatia. Eu sinto que há um efeito quando um homem ouve o outro dizer: “Mas olha, se coloca no lugar da mulher. Imagine que você saia pra fazer uma caminhada e comece a ser perseguido por uma pessoa muito mais forte que você e aparentemente disposta a te forçar a fazer algo que você não queira. Agora, imagine que isso aconteça com muita frequência. Imagine o quanto você acharia horrível que a pessoa estivesse te amedrontando só pra se divertir, sem intenção de te fazer mal de verdade. Ou imagine que algumas dessas pessoas realmente te imobilizassem ou passasseem a mão no seu corpo sem sua permissão.” Da mesma forma, podemos estimulá-los a se colocar no lugar das mulheres no trabalho, no casamento, no cuidado com os filhos, na hora de receber um salário menor, na exposição à violência sexual e doméstica. O mundo precisa de empatia. Homens precisam se colocar no lugar das mulheres; brancos, no de negros; ricos, no de pobres; patrões e patroas, no lugar das empregadas domésticas; heterossexuais, no lugar dos homossexuais etc. etc. etc.

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2 Responses to “Pensando sobre o feminismo e os homens”


  1. 1 Juliana Lisboa 09/11/2015 às 09:38

    Beto, como mulher, feminista, ativista etc etc, acredito que sua postura é a mais saudável possível. Concordo plenamente com o que você pontuou e gostaria, de verdade, que mais homens (e mulheres) pensassem e agissem como você. O feminismo é bom para todo mundo!


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