Claudio Assis mereceu as vaias em Brasília

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Primeiro, é importante que se leia a brilhante reportagem de Carolina Nogueira na AzMina sobre o episódio que motivou as vaias ao diretor pernambucano Claudio Assis no festival de cinema de Brasília. A jornalista conseguiu narrar o episódio e escolher as fontes certas para explicar por que Assis e seu colega Lírio Ferreira agiram sob a benção do machismo na ocasião que lhes rendeu as críticas. Dificilmente alguém faria melhor que Nogueira esse trabalho de pegar o leitor pela mão e mostrar: “Olha, o machismo está tão impregnado na sociedade que essas coisas que parecem banais, naturais, um acidente até, são no fundo, expressão do machismo”.

Lido o texto de Carolina, talvez minhas reflexões ainda sirvam de alguma coisa. Escrevo apenas porque percebi que muitos adoraram o discurso de Assis no dia da premiação do festival, em que seu ‘Big Jato’ foi vencedor de diversas categorias (discurso proferido após a publicação da matéria na AzMina). Na boa (vou deixar logo claro meu ponto de vista), quem gostou do que Assis falou é porque não gosta do feminismo, tem problemas com ele, e está louco para permanecer na sua zona de conforto, que é a sociedade machista em que nos acostumamos a viver.

No discurso, o diretor começa se posicionando como um cara que vê as coisas de cima: “Eu já vaiei e fui vaiado. A vaia é muito bacana. Eu aplaudo quem tá vaiando”. Mas logo mostra que a altura alcançada por seu olhar não é suficiente para incluir a si mesmo no enquadramento. Não… “Mas a vaia tem de ser inteligente”, emenda, antes de chamar seus críticos de fascistas, porque o “tentam calar”.

Confesso que, quando Assis começou o discurso, elogiando as vaias, pensei que viria ali um pedido de desculpas por ser machista. A esperança apareceu em mim. Mas não. A vaia é bacana, mas não a vaia burra, ou seja, a dirigida a ele. O episódio em que o seu machismo ficou evidenciado, pelo jeito, não lhe ensinou muito. Segundos depois de chamar os críticos de fascistas por tentarem calá-lo, Assis responde a um homem que grita “Então, melhora” da seguinte forma: “Fica calado, babaca.” E parte para a desqualificação da plateia que vaia: “Vocês vaiaram aqui Rodrigo Santoro (…) só porque ele era da Malhação. (…) Vaiaram aqui Vladimir Carvalho”. E, depois, se coloca no papel da vítima: “Você não sabe o que aconteceu, o que está acontecendo. Estou sendo apedrejado. Você não tem ideia, e, um dia, eu vou dizer, porque eu não sou mau caráter. Posso ser bêbado, doido, machista, o que for, mas não é isso que tá acontecendo.” E conclui: “Eu não falo o que sei porque eu SOU HOMEM” ( as letras maiúsculas servem tanto para mostrar que nessa hora ele se exaltou ainda mais quanto para chamar a atenção para a ironia inconsciente das últimas palavras escolhidas pelo diretor para encerrar seu desabafo).

Está bem, vamos lá. O argumento final de Assis é que há algo maior por trás de seu “apedrejamento”. Algo que ele sabe, mas nós não sabemos, mas que ele pode suportar o peso de saber e não revelar porque é homem. Vamos partir do princípio de que, sim, há interesses em denegrir sua imagem e que esses interessados estão usando o episódio com Anna Muylaert para atingi-lo. OK. Porém, não é por isso que aquelas pessoas ali o estavam vaiando. Elas vaiavam sua atitude machista. Elas tinham a intenção de dar um recado claro: para elas, o machismo já deu, basta. Manifestações machistas não serão ignoradas, serão lembradas, apontadas, denunciadas, ou, como alguns gritaram, “não passarão”.

O mais dramático do episódio é que Assis, pelo cinema que produz, se sente injustiçado. Ele? Logo ele, que, quando faz cinema, pensa em denunciar realidades injustas, inclusive o machismo, vira o machista da vez a ser atacado? Como assim? E aí parece se tornar muito difícil para ele aceitar que é um machista digno de vaias. Ele gosta das vaias como conceito, mas aquelas que ele ouve são burras, como foram as para Santoro e Carvalho. E, no auge de sua defesa, até admite ser machista, assim como bêbado (por sinal, a desculpa usada por ter sido inconveniente com Muylaert) e porra louca, mas não mau caráter. Mas ninguém o vaiou por ser mau caráter, apenas por ser machista. E ao dizer “posso até ser machista” foge do pedido de desculpas, do reconhecimento do erro, como que para torná-lo pequeno, insignificante.

Um argumento que li em defesa de Assis é o de que todos somos machistas. Entendo esse argumento como uma tentativa de aliviar a pressão sobre Assis, porque ela deveria ser dividida por todos nós. Sim, somos todos machistas. Então, que nos preparemos para recebermos vaias, críticas, reprimendas quando agirmos de maneira machista. Isso se chama educação. Eu me incomodo com casos de bodes expiatórios. Quando uma torcedora é filmada chamando um jogador de futebol de macaco, sendo que milhares de pessoas estão fazendo o mesmo, e ela sozinha se torna a única racista do Brasil, me incomoda. Me incomoda ainda mais ver pessoas que nunca questionaram o próprio racismo achar que podem apedrejar a menina em praça pública, como se eles fossem puros, e ela, o demônio. Casos assim não nos ajudam. Achamos que punimos a racista e esquecemos de olhar para nosso próprio racismo. E, assim, seguimos racistas.

O episódio com Claudio Assis é diferente. Primeiro, porque muita gente, muita gente, não acha que ele merece vaia e se manifestou dessa forma no festival. Depois, porque ele é o diretor de, entre outros, ‘Baixio das Bestas’, um filme duro que mostra como as mulheres são exploradas da maneira mais cruel. E, mesmo assim, ele é machista. A vaia a ele nos educa, porque nos serve de alerta. O machismo está tão emprenhado, tão naturalizado, que nem cineastas inteligentes como Assis deixam de praticá-lo. E parte da plateia do Cine Brasília só lembrou a ele que, sinto muito, não foi um pilequinho besta, um mico inofensivo de bêbado. Foi ofensivo, agressivo, silenciador das mulheres, e, por isso, vai ter vaia. Por isso, você vai ser vaiado hoje. Não vai ser vaiado para sempre, mas não vamos, neste momento, passar a mão na sua cabeça, só porque você é um diretor porra louca genial. Hoje, você vai ouvir. O caso de Assis revela a força do machismo. Você pode sentar e escrever um roteiro atento ao machismo, buscando denunciá-lo, mas livrar-se mesmo do machismo no cotidiano, no trato com o outro, isso é muito mais difícil. Basta uma cervejinha pra ele se manifestar, basta começar uma defesa emocionada que logo vem o grito: “porque eu SOU HOMEM!”

Se pudesse, eu rescreveria o discurso de Assis na noite de entrega de prêmios. Primeiro, pediria um voto de confiança dos críticos para que me ouvissem por um instante. Depois, começaria dizendo que aplaudo quem me vaia, porque mereço a vaia. Que a vaia me mostra que, apesar de me considerar esclarecido, atento, a ponto de discutir o machismo cruel em meu cinema, não consegui me livrar das atitudes que nos parecem ser tão naturais só porque somos homens. Por ser homem, posso roubar a cena, falar o que me vier à telha, sem nem lembrar que estou ali para ouvir o que outra pessoa tem a dizer, especialmente se a outra pessoa for mulher. E que, por isso, peço desculpas.

Com um discurso assim, talvez, pudéssemos voltar a prestar atenção em seu cinema, muito valioso, mais cedo. Mas descer do pedestal dessa forma não é fácil para nós, que somos homens. Infelizmente. O feminismo me desafia porque ele, o tempo todo, me lembra que eu preciso ouvir as mulheres, ouvir mesmo, em silêncio e com atenção e empatia. Assumir essa posição que nunca disseram que cabia a mim. Tomara que eu saiba reconhecer a vaia que me vier de forma merecida no dia que ela surgir. Torço para ser capaz, porque sei que não é fácil desaprender.

Curiosamente, foi quando percebi isso, que ainda preciso desaprender muito, que comecei a questionar se posso me dizer feminista. Hoje, tenho medo de que minha postura antiga, de me dizer feminista, era algo semelhante ao que Assis fez: um homem tentando roubar o protagonismo da mulher, sem saber direito o que está fazendo. Hoje, me digo um apoiador do feminismo, mas sei que ele deve ser protagonizado pelas mulheres, por elas. Se há feministas ao meu lado, busco, hoje em dia, fazer o exercício de falar menos e ouvir mais. Tomei pra mim que só devo me pronunciar pelo feminismo se, no ambiente em que eu estiver, ninguém o fizer. E, para meu lamento, isso é bem comum. Às vezes, num ambiente repleto de mulheres, uma fala machista é pronunciada sem maiores consequências e percebo que, se eu não falar nada, ela passará incólume, sem vaia. Aí, nessa hora, viro feminista e vaio. Porque vaias são necessárias.

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