Sinceridade

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Já faz um tempinho que rolaram os episódios que vou comentar, mas não parei de pensar nesses dias em como achei interessante esses dois acontecimentos que, apesar de opostos, apontam para o mesmo sentido: o da sinceridade. Me refiro ao caso do Jean Wyllys e Bolsonaro no avião e ao do Ed Motta mandando recado pros brasileiros “simplórios” que vivem na Europa.

O primeiro me parece emblemático por fugir de um velho script do qual, vira e mexe, as pessoas reclamam: o de políticos adversários que, quando se encontram em situações sociais, sorriem e se abraçam. Achei curioso o fato de tanta gente que reclama quando vê o Lula apertando a mão de FHC numa festa criticar a postura de Wyllys. Ora, finalmente um político se comporta de acordo com seus discursos no Parlamento, se recusando a ficar ao lado de quem ele politicamente combate, e as pessoas não gostam? Willys é coerente e o criticam?

Não quero, com isso, dizer que não entendo o abraço e os sorrisos de FHC e Lula. Pelo contrário, em nada me incomodam, e acho que políticos habilidosos (e precisamos deles mais do que tudo) são admiráveis. Mas acho que a política praticada por Jean Willys é também necessária, porque é ela que aponta caminhos, nos lembra de aonde queremos chegar. E, para políticos como ele, a coerência em todas as circunstâncias é uma obrigação. As causas defendidas por Jean não permitem confraternizações amistosas com bolsonaros. Ao mudar de lugar, posicionou-se politicamente como lhe cabe e agiu, curiosamente, como muita gente que o criticou gostaria que todos os políticos agissem: fiéis ao discurso.

O outro episódio é o do Ed Motta. Ok, ele escreveu um texto babaca, elitista, deslumbrado, desdenhando dos “brasileiros simplórios” que aparecem nos shows que ele dá na Europa, aquele continente que faz os vira-latas de alma se sentirem pequenininhos. Falou merda, o cara. Mas vocês viram o pedido de desculpas dele? Tiveram a generosidade de lê-lo desarmados? Eu me esforcei pra isso e digo: o cara foi sincero de um jeito raro. Assim como Jean foi de uma sinceridade rara na política, Ed foi raramente sincero para um arrogante elitista. Se não estão convencidos, leiam o trecho a seguir:

“A forma que escrevi muitas coisas eu mesmo repudio, mas é fruto da minha cabeça lotada de revoltas, decepções na arte, paranóias etc que me fazem me entupir de um monte de remédios para ansiedade, depressão etc.
Não estou me vitimizando, estou me abrindo com vocês, porque assim como não tenho medo de me expor escrevendo merda, não me amedronto por minhas fraquezas que não são poucas.”

Bom, isso me parece mais que uma resposta pensada por assessores/conselheiros para minimizar danos comerciais. Me pareceu uma confissão que humaniza o babaca escroto. O arrogante, no fundo, é um fraco, decepcionado, amedrontado, ansioso, deprimido. E não são as pessoas indignadas com o que ele disse que fazem essa análise tão dura. Esses adjetivos todos foram usados por ele mesmo.

O pedido de desculpa de Ed me comoveu, devo confessar. Porque tenho certeza de que voltar atrás já é difícil, mas voltar atrás confessando que seu erro foi motivado por tantas vulnerabilidades pessoais, confessadas num pedido de desculpas, é algo muito raro. Raro porque exige a coragem de admitir em si a fraqueza que vemos tão facilmente nos outros.

Pra mim, depois do pedido de desculpas, se tornou impossível continuar criticando Ed. Porque eu o compreendi. E compreender é o gesto anterior a perdoar. Continuo achando a música dele chata (apesar de saber que ele é tecnicamente muito talentoso), mas sinto empatia pela pessoa, que não mais rechaçarei enquanto demonstrar que é capaz dessa reflexão sobre si mesma.

Sempre gostei de Jean Wyllys (desde a época do Big Brother). Nunca gostei do Ed Motta. Mas admirei ambos pela sinceridade recentemente demonstrada.

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