“Pa”

IMG (37)Pensei bastante antes de escrever esse texto; se devia postar isso aqui ou não. Não queria parecer alguém que usa um acontecimento tão doloroso e importante pra tanta gente pra chamar a atenção. Mas uma homenagem silenciosa seria algo muito estranho. E essa foi uma homenagem que nasceu silenciosa e encoberta, e que foi se revelando aos poucos pra mim mesmo. Agora, ela está clara e  acho que vale a pena falar dela, pra que se torne, enfim, uma homenagem completa.

Um mês e meio atrás, meu pai morreu, depois de ter convivido com um câncer da maneira mais digna que, imagino, alguém possa conviver. Foi um paciente exemplar, humilde, aplicado, tranquilo e que conseguiu manter o bom humor até os últimos momentos. Quando ele começou a piorar muito, larguei de mão uma série de projetos, incluindo minha participação na coletânea Somos Todos Latinos, com a qual tinha assumido compromisso. Ver meu pai frágil, perto de ir embora, me deixou sem ânimo de organizar a gravação da música que havia escolhido, ‘Del Monton’, do Sr. Chinarro, que exigia a participação de vários músicos.

No entanto, dias antes de sua morte, comecei a sentir vontade de voltar atrás na decisão e participar sim, mas com outra música: ‘Más o menos bien’, dos argentinos do El Mató a Un Policía Motorizado. A princípio, eu explicava essa ideia pra mim mesmo apenas como uma forma de cumprir o compromisso, fazendo uma versão simples, voz e violão, que poderia concluir rapidamente. E assim fiz. Em 13 de fevereiro, horas antes da missa de sétimo dia de meu pai, fui ao estúdio de meu primo Marquinho e, em uma hora, gravamos e mixamos a faixa.

Nos dias seguintes, me vi muito apegado à gravação, que ouvia repetidamente. Então, trechos da letra começaram a se destacar, como se as palavras se iluminassem na minha frente. Primeiro, percebi que a canção se dirige a várias pessoas, inclusive… ao pai. Ao cantá-la, eu estava ali, falando com meu pai: “Pa, necesito un poco de plata para que todo siga más o menos bien” (quantas vezes na vida fiz esse pedido a ele…). Depois, o verso anterior a esse começou a bater forte: “Ma, no te preocupes tanto, todo va a estar más o menos bien“. E o refrão, então, se revelou o resumo do quão boa a vida pode ser nessas horas: “Más o menos bien, más o menos bien, más o menos bien, más o menos bien“. Nada mais real que a morte. Nada mais real que admitir que na vida é assim: mais ou menos bem. Bravíssimo, El Mató!

O desejo de me esforçar e cumprir o compromisso era, na verdade, a vontade de cantar para o meu pai, para a minha mãe, para meus amigos (o que inclui minha família). Era a vontade de, usando a música, uma das coisas mais importantes pra mim, dar tchau pro meu pai. Assim como faço agora, usando a palavra, outra coisa fundamental em minha vida. Dou, aqui, adeus a meu pai. Esse cara que tinha um senso de humor delicioso, sabia mexer a orelha, gostava de cantarolar sambas antigos, era um exímio pé de valsa, recitava A cigarra e a formiga em francês, assava picanha como ninguém e, acima de tudo, era muito querido. Em novembro passado, comemorou 80 anos em uma festa cheia de amigos e parentes que fizeram questão de comparecer para lhe dizer o quanto era amado e admirado. Foi o Oscar, o Perné, o Cunhado, o Tio, o Goiano, o Biscoito, o Bolim Bolacho, o Bonzo, o Bem (pra minha mãe) e o Papai (pra mim e meus irmãos). Foi um cara dez, fundamental para que minha vida fosse assim, muito mais que menos. A ele dedico minha versão de ‘Más o menos bien’.

Amigo, no llores por las noches,
es hora de buscar lo esencial.
Nena, ayer fueron muy duros tus reproches,
no importa más o menos todo sigue igual.
Ma, no te preocupes tanto, todo va a estar más o menos bien.
Pa, necesito un poco de plata para que todo siga más o menos bien.
Más o menos bien.
Amigos, formemos una banda de rocanrol,
guitarras guardadas en el placard.
Ahora somos nuevos creadores de rocanrol,
tranquilos, todo va a estar más o menos bien.
Más o menos bien.
Desconocido, espero tus problemas se acaben,
y así volver a la senda del bien.
Desconocido, dobla tu energía en partes iguales
y todo va a estar más o menos bien.
Mirando la comida ya fría,
no creo que esté hecha con amor.
No importa, hoy celebraremos como familia,
que más o menos sigue como quiero yo.
Más o menos bien.

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4 Responses to ““Pa””


  1. 1 Wanderer Dorothy 21/03/2015 às 10:00

    beto, um beijo. ainda não vivi essa perda, mas me identifiquei muito com o seu jeito de vivê-la.

  2. 3 Sergio 03/04/2015 às 00:24

    Sinto muito pela sua perda. De verdade. Mas, cara, apesar da ausência ser dolorosa, não tenha dúvidas de que seu pai estará ao seu lado, mesmo em outro plano, te orientando e guiando em todos os momentos que vc precisar. Ouça sempre a voz da sua intuição, do seu coração, pois são esses os canais que nos unem aos nossos que já se foram. Força para todos


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