É melhor lutar pelos R$ 0,20 do que dizer que não é só isso

mpl-lbEm 1989, participei da criação, com um grupo de amigos, de um movimento chamado SOS Educação. Começou com uma reunião de seis colegas de escola, planejando fazer uma passeata. Simples assim, uma passeata em favor da educação. Educação pública de qualidade, pensamos. Uma boa reivindicação. Começamos a chamar outros colegas, aí vieram amigos de amigos, daqui a pouco éramos uns 30 estudantes fazendo parte do movimento.

Planejamos, então, detalhes da primeira passeata: que dia ela ocorreria, por onde caminharíamos, qual nosso destino. Passamos em vários colégios chamando o pessoal pra participar. Convencemos alguns grêmios estudantis de colégios públicos (pé atrás com um movimento pensado por alunos de escolas particulares) de que a pauta era mesmo a favor do ensino público. Então, um dia, saímos das quadras 900 da Asa Sul, área de Brasília onde ficam várias escolas, e andamos, centenas de estudantes, até o Ministério da Educação. Nas mãos, um manifesto com uma pequena lista de reivindicações, tais como salário digno aos professores, verbas públicas só para escolas públicas etc.

Fomos cantando palavras de ordem: Arroz, feijão, saúde e educação! Estudantes, unidos, jamais serão vencidos! Chegamos ao prédio do Ministério. Passou um engravatado, mal humorado. “Burros, não é aqui que vocês deveriam estar. É o governo do DF o responsável pela educação de vocês”. E entrou. Vaiamos. Passamos a exigir, além do encontro com o ministro, um pedido de desculpas daquele sujeito. Dali a pouco, um fotógrafo de jornal chega perto da gente. “Vocês não queriam falar com o ministro? Ele acabou de passar aqui na frente, de carro, indo embora. Vocês não viram?” Não posso falar por meus colegas, mas o fato é que eu não sabia como era a cara do ministro. Não tinha chance de reconhecê-lo. Desconfio, seriamente, que a maioria também não sabia, e foi por isso que ele passou batido, sem a gente perceber.

No fim, um funcionário do ministério nos recebeu. Pegou as propostas, falou que o engravatado disse aquilo, mas que era pra gente não ligar. Elogiou nossa iniciativa. A Globo entrevistou alguns de nós. Um jornal fez matéria grande: o que pensam os jovens de hoje. Artigos analisavam o movimento, dizendo que o jovem pós-ditadura não era acomodado coisa nenhuma. Éramos a prova. Continuamos fazendo reuniões e planejando a grande ação. Uma nova passeata. Dessa vez, maior. Da Torre de TV até o Palácio do Buriti, o palácio do governo distrital. Fizemos muita propaganda nas escolas, fomos aos colégios das outras cidades do DF. Pregamos cartazes em pontos de ônibus.

No dia marcado, a Torre de TV lotou. Uma multidão de estudantes, milhares. Polícia pra todo lado. E estudantes oferecendo flores pros guardas. Seguimos até o palácio. Felizmente, a polícia supertranquila, a garotada também. Um grupo de cinco ou seis entrou pra falar com o governador. Críticas à “péssima educação”. O governador falou algumas coisas, os jornais e tevês fizeram imagens. Acabou a manifestação.

Dias depois, começou o assédio. Grupos rivais dentro do movimento estudantil querendo nosso apoio. O partido do governador chamando uma de nossas mais ativas colegas para fundar a ala jovem da legenda. “Mas eu apareci na tevê falando mal da educação no governo dele!” “Não tem problema, queremos líderes como você.” Dissemos não a qualquer proposta, a qualquer tentativa de ligar o SOS Educação a qualquer partido ou grupo político. Novamente, não posso falar por meus colegas, mas acho que acertamos nesse ponto. Não porque os partidos não servem para nada. É que não éramos suficientemente informados para saber por onde ir. O ano acabou. Vieram as férias de verão. O SOS Educação nunca mais se reuniu. Acho que porque não sabíamos o que fazer além de uma passeata pela educação de qualidade.

Obviamente, não se pode dizer que a história do passado é igual ao que ocorre hoje. Mas vejo possíveis semelhanças. As pessoas vão às ruas, estão indignadas “com tudo”. Não são só os R$ 0,20 da passagem, dizem. Mas algo me diz que melhor seria se fosse. Reclamar de uma decisão do governo (o aumento da passagem) e exigir que ele volte atrás, é algo concreto. Dizer que “nada tá bom” pode parecer uma reivindicação maior, mas ela também, de tão genérica, se aproxima de nenhuma reivindicação, como a que tínhamos em 1989. E abre espaço para oportunistas interpretarem a manifestação como bem entenderem. Já há quem solte gritinhos de impeachment (????!!!!!). Lute pelos R$ 0,20, São Paulo. Depois, encontre outros pontos por que lutar. E lute bem informado, por favor.

Anúncios

0 Responses to “É melhor lutar pelos R$ 0,20 do que dizer que não é só isso”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Contato

humberto.rezende@gmail.com

Comprar CDs

Clique para baixar o CD (.zip)

Twitter

Instagram

Meu carrinho de autorama. #AyrtonSenna #toleman Tempo.

Arquivo


%d blogueiros gostam disto: