NOSSO racismo

Ao contrário do que diz o título de um livro muito comentado alguns anos atrás, nós somos racistas. Acredito ser necessário admitir isso pra que tenhamos alguma chance de aprendermos a não ser. O episódio sobre um menino negro retirado bruscamente de um restaurante porque foi confundido com um “pedinte” (você pode ler sobre isso aqui) é muito mais do que o flagrante de um racista. É um flagrante de como fomos, infelizmente, ensinados a ver o mundo.

A atitude do gerente do estabelecimento, que não se preocupou em nenhum momento em se perguntar se aquele menino podia ser um cliente, não tem justificativa. Ele deveria se envergonhar muito do que fez. Mas se o transformarmos no “monstro racista” e pararmos por aí, perderemos a chance de olhar pros nossos próprios preconceitos. E, sem enxergar nossos preconceitos, dificilmente conseguiremos combatê-los. Por isso escrevo este texto, para fazer uma confissão.

O dia em que mais fiquei envergonhado de mim mesmo foi o dia em que agi de forma parecida à desse gerente de restaurante. Faz uns seis ou sete anos. Estava saindo de um centro comercial aqui em Brasília, em meados de dezembro, rumo ao meu carro. Foi quando passei por um garotinho negro, que se dirigiu a mim. Tateei os bolsos da calça e disse: “Desculpa, eu não tenho nada”. Foi então que ouvi a voz da mãe do menininho, uma mulher também negra. E a frase dela consegui entender bem. Ela disse: “Ele está falando que o Papai Noel está chegando”. Olhei melhor para ela, depois para o menininho, que ainda sorria para mim. Ele não havia pedido dinheiro, ele não precisava de dinheiro. Ele só estava dividindo comigo a alegria que sentia com a chegada do Natal. Chocado comigo mesmo, abaixei-me um pouco, e me esforçando muito pra vencer a vergonha e sorrir de volta pro garotinho, conversei com ele. “É, o Papai Noel tá chegando! Legal, né?”

Sorri, de olhos quase no chão, para a mãe também, torcendo para que ela me perdoasse e para que o menininho não tivesse percebido o que ela certamente tinha notado. O erro estava feito. Mais uma vez, provavelmente não foi a primeira, aquela mulher tinha visto o filho ser considerado algo que não era por causa da cor de sua pele.

Se me perguntarem se acho os negros menos capazes, menos inteligentes ou menos bonitos, responderei com toda a sinceridade que não acho. Um racista clássico (se é que existe isso) pode dizer que não acha, mas ele vai estar mentindo. No entanto, mesmo eu tendo chegado aonde cheguei, e me refiro a essa consciência de que os negros não são menos que os brancos, não consegui eliminar completamente o ensinamento torto que recebi desde criança. As lições vêm das mais variadas formas: um comentário que uma tia faz sobre o absurdo de a filha do vizinho namorar um negro, os programas e comerciais de tevê que sempre retratam os negros de determinada forma ou os ambientes que frequentamos, com tão poucos negros ao redor. Na escola (particular), tive pouquíssimos colegas negros, menos de cinco. Onde trabalho, tenho um número parecido de colegas negros. Nos restaurantes a que vou, vejo poucos negros sentados. E assim vamos aprendendo tortamente.

Essa é uma lição que precisamos desaprender. E achar que é fácil se livrar dos preconceitos é o primeiro passo para falhar nessa tarefa. Usemos, pois, esse episódio do restaurante em São Paulo como aviso de que precisamos ficar alertas, para parar de cometer injustiças e violências (o que fiz com aquele garotinho foi uma forma de violência) contra os negros, sejam eles crianças ricas ou pobres, colegas de trabalho ou desconhecidos na rua, clientes ou garçons. Fiquemos atentos. O reflexo do preconceito pode ser disparado se não agirmos assim. Desaprender não é fácil, mas não impossível. E temos a obrigação de nos esforçarmos.

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4 Responses to “NOSSO racismo”


  1. 1 Fábio 07/01/2012 às 14:40

    Belo e corajoso texto, Bétão!

  2. 3 Fabiola 15/01/2012 às 09:16

    Ja aconteceram situacoes parecidas comigo, Beto.
    A frustracao e a vergonha sao terriveis mesmo.

    De qualquer forma, a verdade doi mas liberta.

    Beijos e feliz 2012!


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