Humor e preconceito em Marte

No interessantíssimo seriado da BBC ‘Life on Mars’, um policial do século 21 acorda e passa a viver em 1973 depois de sofrer um acidente de carro. Enquanto ainda tenta entender a estranha viagem no tempo, Sam Tyler precisa também se adaptar à nova realidade. Sente-se um alienenígena transportado a um mundo em que as pessoas bebem (muito) durante o expediente, fumam em quartos de hospitais e desprezam a capacidade profissional das mulheres. Pois não é raro eu me sentir como Tyler: vivendo, assombrado, em Marte.

Beber no trabalho deixou de ser algo que se faça com naturalidade (há quem ainda faça escondido, mas todos sabem que isso não é legal) e os malefícios do cigarro já são suficientemente conhecidos. Quanto ao tratamento às mulheres, no entanto, a sensação que tenho é a de que paramos no tempo. Ainda estamos em 1960, 1970. Seja na ideia “divertida” e “inofensiva” de algumas pessoas que ainda organizam eleições das mais mais no trabalho (acreditem, isso ainda ocorre!), seja nos comerciais de tevê ou nas piadas dos humoristas, vejo imperar uma visão (que deveria estar) ultrapassada das mulheres.

Podem achar estranho, mas essas coisas me incomodam muito. Não sei muito bem as razões que me levam a sentir isso, mas a persistência do machismo, seja disfarçado de humor ou não, me irrita profundamente. Sou feminista acima de tudo, e acredito que a adesão e participação dos homens na luta pelos direitos da mulher pode ajudar bastante para que eles (os direitos) sejam cada vez mais respeitados.

A polêmica em torno da propaganda de Gisele Bündchen dando más notícias para o marido de calcinha e sutiã me deixa pasmo. Muitas pessoas não aceitam nem que o governo (estimulado por pessoas e entidades da sociedade, diga-se) argumente com o Conar (o órgão que regulamenta a publicidade) sobre a peça. Como se o debate sobre uma propaganda que realimenta os estereótipos mais ultrapassados sobre as mulheres fosse absurdo. Ora, se não podemos nem nos mostrar incomodados com a imagem que se vende da mulher, sob pena de sermos acusados de censores, aonde chegaremos na luta pelo tratamento justo e não discriminatório a ambos os gêneros? Agora, o que me deixa pasmo mesmo é que alguém ainda elabore propagandas assim, que a ideia seja aceita em reuniões, que os clientes vejam a peça e a aprovem. Porque, pra mim, só numa agência em “Marte” uma ideia dessas seria levada a sério. Como a propaganda que ilustra este texto, produzido nos marcianos anos 1960.

O humor — seja na propaganda, seja o feito por profissionais do riso — depende de cúmplices. Ri, acha legal, quem compactua com a mensagem da piada. Um humorista que não encontra uma plateia que pensa como ele não fará ninguém rir. Todos temos então nossa parcela de responsabilidade, e os publicitários parecem apostar na visão machista para vender calcinha e sutiã. Uma pena. Tudo bem que é demais esperar que a publicidade tenha como missão fazer a consciência da sociedade avançar, mas pelo menos não tente fazer ela regredir. Não é pedir demais. Aliás, é um conselho que pode até ajudar as vendas. Não vi uma mulher inteligente que tenha se identificado com a propaganda de Gisele. Muitas podem não ter se incomodado com ela, não ligar, mas nenhuma se sentiu representada. Fica a dica aos publicitários.

Quanto ao novo humor brasileiro, a mesma dica. Muitos podem até rir de vocês, mas muitas vezes isso só significa que eles são tão imbecis quanto vocês. Nas últimas matérias que li sobre o episódio Rafinha Bastos, alguns especialistas comparavam esse humor cheio de preconceitos ao feito nos Estados Unidos. Não sou especialista em humor, não acompanho muito essa arte, mas achei estranho. Lembro de alguns stand ups de Chris Rock e de Bill Cosby em que o alvo era justamente o preconceito das pessoas. Eles nos fazem rir do ridículo que é a pessoa preconceituosa e não o que tentam fazer Rafinha e companheiros.

Uma dessas cenas que vi era a de Chris Rock falando sobre a intenção de Obama em fazer uma reforma da saúde e garantir assistência médica a todas as pessoas, especialmente aos pobres, claro, que ainda não têm esse direito garantido. Chris foi muito engraçado ao simular uma conversa que os congressistas contrários às medidas teriam com seus netos daqui a alguns anos: “Vovô, por que você não queria que os pobres tivessem direito a seguro de saúde?” “Ah, bem, eu não sei. Só não achava que todo mundo deveria ser saudável. Você não sabe como é essa gente, eles ficam mais doentes do que você imagina.” E continuou, comparando a situação com a daqueles que foram contra a luta dos negros por seus direitos civis: “Vovô, é você nessa foto usando esse boné escrito ‘Eu odeio Martin Luther King’?”

Fosse um desses novos humoristas brasileiros (desculpem, não queria generalizar, mas não conheço tão bem o trabalho de todos pra saber diferenciá-los), provavelmente se sairia com algo: “Quem são esses latinos ilegais agora pra achar que merecem ser tratados no hospital? Voltem pra porcaria da Amazônia pra receber remédio de macaco”. E, sim, muita gente ia rir e ele ia achar que, por causa disso, estava fazendo humor de boa qualidade.

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2 Responses to “Humor e preconceito em Marte”


  1. 1 Fabíola Rech 07/12/2011 às 20:23

    Já sabia que você é um cara original, mas só conheci seu blog agora, Beto!
    Obrigada pelo sopro de discernimento nesse cyberespaço marciano de meu Deus.

  2. 2 blogdobetoso 14/12/2011 às 03:49

    Olá, Fabeiola, eu que agradeço por você ter passado aqui! Volte sempre. 🙂


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