Crítica no Miojo Indie

O blog Miojo Indie publicou texto sobre ‘Ferro-velho de boas intenções’. “O novo disco de Só não chega a ser um trabalho intimista, mas funciona como um projeto fechado, recluso e que necessita do máximo cuidado durante sua apreciação”, escreve Cleber Facchi. Para conferir o texto no site original, clique aqui.

Disco: Ferro-velho de boas intenções, Beto Só

Por Cleber Facchi

O ano de 2008 foi um ano raro e sofrido para aqueles que acabaram se deparando com o delicado segundo disco de Betó Só, Dias Mais Tranquilos. Embora o título do trabalho transmitisse certa dose de sobriedade, ou tranquilidade como anuncia, o agrupado de composições que se escondiam no álbum do brasiliense seguiam por um caminho diferente, uma linha de dor, recordações de um passado sombrio e recente que transformavam o disco em um grande lamento musicado. Mesmo que lá no fundo a voz manhosa do cantor transmitisse um fio esperançoso em seus versos, como se de fato esperasse por dias mais tranquilos, era a dor e a melancolia que se estabeleciam em cada segundo do nada tranquilo registro.

Após os acordes e os versos finais da orquestrada Com leite e café, faixa que encerrava o obscuro disco, Beto Só passou três anos em silêncio, uma quietação que se encerra agora com a chegada de Ferro-velho de boas intenções (2011, Senhor F), seu terceiro e ainda mais complexo trabalho. Tomado por dez composições, o disco parece se afundar completamente em um mar de reverberações sorumbáticas, um som diluído de forma penosa, como se o brilho e o mínimo concentrado de esperança que se manifestava com esforço no álbum que o precede fosse simplesmente deixado de lado ou extinto.

Denso e lento, o disco é definitivamente um trabalho difícil de se ouvir, mesmo até para aqueles que já conheçam o trabalho do músico desde o “debut” Lançando Sinais (2005). Não estão mais lá composições como O tempo contra nós, Abre a janela ou Minha Doce Bailarina, faixas que mesmo conduzidas por uma sonoridade sombria eram capazes de manter uma aceleração constante, além, claro, de versos fáceis e que poderiam facilmente serem absorvidos pelos ouvintes. Diferente do trabalho anterior, o novo disco de Só não chega a ser um trabalho intimista, mas funciona como um projeto fechado, recluso e que necessita do máximo cuidado durante sua apreciação.

Quem espera alcançar algum resultado a partir de uma única audição do disco acabará obviamente interpretando o trabalho como um álbum ruim, afinal, as emanações opacas e nada radiantes das composições parecem muitas vezes querer afastar o ouvinte, como se cada canção fosse protegida por uma armadura quase intransponível de dor e talvez até pessimismo. Tirando a presença de seu idealizador, o álbum em nada se parece com qualquer outro trabalho do brasiliense, que busca pela constante busca de um novo tipo de som e até uma nova maneira de expor seus versos, algo que pode afastar seu anterior público ao mesmo tempo em que pode o aproximar de outro.

É só a partir da terceira ou quarta audição que Ferro-velho de boas intenções passa realmente a fazer sentido, se mostrando não mais como um disco centrado na vida, nas dores e nos sentimentos de Beto Só, mas um registro que parece olhar para além, muito além dele. “Meninos jogam bola num terreno abandonado/ E dois são atropelados por um carro desgovernado”, canta o músico em Poema Rejeitado, oitava faixa do álbum e canção que melhor expõem as novas tonalidades que tomam conta do recente disco. Mesmo nos momentos em que parece voltar o foco para si, como em Vivendo no escuro, Só trata de seu sofrimento como algo amplo, como se falasse de algo maior, quase universal.

Ausente de refrões, acordes diferenciados ou mínimas melodias que tragam distinção através das faixas, o álbum se locomove através de uma massa instrumental única e sólida, como se todas as dez canções presentes no disco fossem na verdade apenas uma. É praticamente impossível apreciar o trabalho a partir de uma ou outra faixa, afinal é como se para termos total compreensão do álbum fosse preciso ouvi-lo do princípio ao fim, sem cortes, o que obviamente torna a audição do trabalho algo doloroso, mas ainda assim uma experiência única, sincera e incrivelmente sufocante.

Anúncios

0 Responses to “Crítica no Miojo Indie”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Contato

humberto.rezende@gmail.com

Comprar CDs

Clique para baixar o CD (.zip)

Twitter

Instagram

Papai. Faria 83 anos hoje. Saudades. 1996. Casa. #architecture

Arquivo


%d blogueiros gostam disto: