Entrevista

Uma nova revista eletrônica, a Negodito, me entrevistou esta semana. Divido com vocês o texto de Luis R. Lopes. Abraços!

Entrevista com Beto Só: Ferro-velho de boas intenções sai esse semestre

Luis R. Lopes

Beto Só é um cantor e compositor brasiliense que, ao menos na modesta opinião deste que vos escreve, trata-se de um legítimo representante da boa música nesse país. Presente no cenário alternativo desde 2005, ano em que lançou o seu primeiro trabalho, o disco Lançando Sinais, o músico impressiona por seu universo confessional e pela sutileza com que consegue proferir versos de reflexão e melancolia em suas canções. Um verdadeiro herói para os desiludidos, equivocados e mal-amados deste país, Beto Só é um cara que, quando faz sentido, toca a sua alma, a sua ferida, o seu câncer, a sua dor, e torce. Sem dó.

Foi assim que eu me senti após escutar atenciosamente e por diversas vezes o disco Dias Mais Tranquilos (2008), que ganhei do músico em Curitiba, após sua apresentação no Festival Rock de Inverno, em 2009. Um álbum impecável do começo ao fim, que figurou por algumas listas de “melhores do ano” naquele tempo, mas que não foi capaz sequer de alçá-lo ao posto de “mais ou menos famoso”.

Beto Só continuou e continua “anônimo”. Apesar de ser apontado por alguns como a “salvação de Brasília nos tempo atuais”, ele não participa do mainstream, não faz turnês internacionais e nem regionais, não foi apadrinhado por ninguém, suas músicas não tocam nas principais rádios do país e tampouco a TV lembra dele. Mas uma coisa este site garante: o cara manda bem demais! Merece ser ouvido.

Agora, três anos depois de seu último intento em estúdio, ele volta à cena com o lançamento de Ferro-Velho de Boas Intenções, disco que considera encerrar uma espécie de trilogia composta em parceria com seus trabalhos anteriores. Nessa entrevista para o NegoDito, o músico contou alguns detalhes desse novo disco, falou da atual cena brasiliense, de sua interação com o público via blog, entre outros assuntos que você confere abaixo:

Beto, como foi o seu primeiro contato com a música? Quantos anos você tinha?

Minha memória musical mais antiga, de ser tocado de uma forma especial por alguma canção, é de quando eu tinha uns 6 anos. Eu me lembro de voltar da escola, no fim da tarde, no carro da minha mãe com meus irmãos, e a gente ia escutando as mais pedidas de alguma estação, que não sei qual era. Durante algum tempo, a primeira colocada foi ‘Romaria’, de Renato Teixeira, cantada pela Elis Regina. Aquela música me deixava realmente melancólico. Na hora em que ela tocava, eu ficava calado, olhando a cidade pela janela e sentindo a música, que é muito emotiva. Mesmo ficando meio entristecido, adorava quando a ouvia no dia seguinte e acho que isso diz muito sobre minha relação com as canções tristes.

Você é um cantor e compositor de Brasília, uma cidade fundamental para as páginas do rock brasileiro. O que mudou dos tempos de Aborto Elétrico/ Plebe Rude para cá e o que se conservou daquele tempo no rock de hoje?

Acho que o clima hoje na cidade é bem diferente daquele que existia no começo dos anos 80. Mas uma coisa permanece: a vocação que a cidade tem para o rock. As bandas não param de surgir aqui em Brasília, muitas com uma qualidade extraordinária e isso se deve particularmente às bandas dos anos 80, que deram autoestima e identidade a uma cidade jovem e indefinida. Depois, o período da inocência passou e as bandas começaram a surgir como projetos mais ambiciosos. Atualmente, eu vejo uma possibilidade positiva: a descrença com o mercado tem feito muitos artistas daqui voltarem a fazer música pelo simples prazer, e por isso fazem o que realmente gostam, o que estão a fim. Acho que isso vai gerar uma leva muito criativa de canções. Por isso, sou otimista quanto à qualidade autoral do que vai surgir em Brasília nos próximos anos.

Para fazer o terceiro disco, você postou em seu blog que ouviu muito Elliott Smith, Nick Cave, Neil Young, Sean Lennon, Tom McRae e Nick Drake. Até que ponto esse pessoal te influencia e como é que rola o seu processo de composição?

Esses são artistas que ouço sempre, uns mais, outros menos. Então eles naturalmente me influenciam na hora de compor. O que fiz foi, ao pensar nos arranjos do disco, ouvir esses caras mais atentamente, pra identificar o que eu podia aproveitar deles. Eu me surpreendi, por exemplo, com o fato de as músicas iniciais do Neil Young terem um clima que eu buscava, mas o som da bateria me parecia péssimo e não serviria para esse projeto. Esses artistas serviram também como referência para os músicos que trabalharam comigo saberem o que eu pretendia com o disco. Quanto ao processo de composição, é bem variado. Pode surgir de alguma sequência de acordes ou de uma frase ou ideia que me inspira a pegar o violão e tentar encaixar aquilo em uma melodia. Mas é muito comum eu compor com meu irmão, o Ju. Nesse caso, normalmente ele me mostra alguma ideia de rife ou harmonia no violão. Se a ideia nos parece boa, fico tocando aquilo e tentando cantar alguma coisa por cima até surgir uma ideia que vou trabalhando. Depois mostro pra ele e a gente vai discutindo até a música ficar pronta. É comum que, nesse processo, a gente já elabore os arranjos de outros instrumentos, como o violoncelo, que está em todas as músicas desse próximo disco.

Você manteve a parceria com o Philippe Seabra para a produção desse disco também? E quem é a banda que está te acompanhando nesse projeto?

Sim, o Philippe é produtor mais uma vez do disco e ele ainda tocou piano e teclado em algumas faixas. Os músicos que participaram da gravação foram Txotxa (bateria), Tharsis Campos (baixo), Ataide Mattos (violoncelo) e o Ju (guitarra), que é meu parceiro na maioria das músicas que já compus. Tem ainda a participação do Fernando Brasil (Phonopop e The Johnny Nit Circus), que tocou o violão em ‘Pronto é ilusão’, música que fiz em parceria com ele.

E o que podemos esperar desse terceiro trabalho? O quanto ele se aproxima de “Lançando Sinais” e “Dias Mais Tranquilos” e no que ele se distancia de seus antecessores? Já tem nome definido?

O disco se chama ‘Ferro-velho de boas intenções’. Acho que ele é tudo o que eu pensava em fazer no primeiro (‘Lançando sinais’) e não consegui. É o disco no qual me sinto mais representado, fiz de forma totalmente livre, sem tentar adivinhar em nenhum momento o que os outros poderiam achar. No segundo (‘Dias mais tranquilos’), eu estava um pouco perdido, sem saber pra que lado seguir, mas nesse eu me encontrei de verdade. O resultado é um disco bem acústico, onde o violão e o violoncelo mandam e os demais instrumentos servem de apoio, apesar de serem fundamentais pro resultado final. Estou cantando de forma mais sussurrada e acho que encontrei também meu jeito de cantar. Agora, preciso avisar que é um disco lento, pra quem topar embarcar na viagem, dando a chance de conhecer as músicas. Quem ouvir de forma ansiosa, apressada, pode achá-lo insuportável. Nesse sentido, ele vai na contramão desse tempo veloz e tecnológico que vivemos. Vamos ver no que dá.

Você convidou o artista Fernando Lopes para fazer as ilustrações do disco que sai nos próximos meses. Gostaria de saber como surgiu essa parceria e também qual é o conceito que você busca com a arte gráfica desse material?

Esse disco fecha uma espécie de trilogia pra mim. No quarto, se ele existir, devo fazer algo diferente, talvez um disco sem música minha, de versões. Então quis manter a ideia de ter na capa a obra de um artista plástico. No primeiro, usamos ilustrações do artista de Belém Mario Barata. No segundo, da brasiliense Cecília Mori. Eu sempre admirei o trabalho do Fernando e achei que ele tinha a ver com esse disco, pelo menos na intenção. O Fernando faz uma arte bonita, mas sempre com um detalhe incômodo. E foi isso que busquei ao elaborar esse disco.

O que você pensa sobre as recentes polêmicas envolvendo o Ministério da Cultura e a licença Creative Commons e também sobre a atual Lei Rouanet e sua relação com o universo artístico brasileiro?

A questão do Creative Commons foi mais simbólica, podendo, talvez, sinalizar uma tendência mais conservadora na nova gestão. Mas assim como ainda não formei uma opinião sobre o governo Dilma, não tenho uma impressão definida sobre o ministério. A discussão sobre a Lei Rouanet é necessária. O que importa mesmo é que a política cultural valorize as produções regionais, distribua o dinheiro, garanta ao público acesso a uma produção estética diversificada. Se a Lei Rouanet não ajudar nisso, será uma lei ineficaz.

Suas letras e músicas, ou pelo menos parte delas, possuem um apelo sentimental bastante profundo. Isso é o reflexo de um cara que se fodeu muito na vida ou existe um personagem por de trás disso tudo? Falo por mim, mas algumas músicas suas, como “Residual” e “Abre a Janela”, só para citar duas, são de arrepiar o sujeito. Podemos entender que com essas canções você está querendo compartilhar alguma experiência pessoal?

Bom, as letras têm algo muito pessoal, sem dúvida, mas eu não sou uma pessoa triste. Quem me conhece antes de ouvir minhas músicas se surpreende ao ver que elas podem ser bem tristes às vezes, porque no dia a dia sou bem alegre. Costumam dizer que sou muito engraçado. Agora, apesar desse lado alegre, sentimentalmente eu demorei muito pra ser feliz. Ouvi muita música triste chorando de amores. Era um garoto complexado, gordinho, delicado. Era muito comum virar o melhor amigo da garota por quem estava apaixonado e amar em silêncio. Então, muitas músicas falam de experiências reais, como ‘Amor em silêncio’ e ‘Fica tudo bem’, do primeiro disco, muito autobiográficas. O curioso é que você citou duas que são menos biográficas. ‘Residual’ eu fiz para um curta de mesmo nome de um diretor aqui de Brasília. É toda baseada na história do filme, sobre um casal que se reencontra e vê que ainda existe algo entre os dois. E ‘Abre a janela’ foi um exercício de imaginação. Eu me perguntei como me sentiria se a mulher que eu amasse me deixasse e voltasse um dia para pegar as coisas dela. Mas é claro que aproveito a música pra confessar que já senti vontade de ver alguém sumir. Por isso termino com o verso “Vê se morre”, que, não sei por quê, deixa algumas pessoas chocadas. Quem nunca sentiu isso? O próximo disco está muito confessional também. ‘Boas intenções’, que inspirou o nome do disco, fala muito de mim, da minha dificuldade de dizer não, de entrar em conflito, da necessidade de agradar os outros, sem dúvida meu maior defeito.

Com o lançamento do CD previsto para maio, existe também uma agenda de apresentações programada para a divulgação? Como é que você está pensando a turnê do disco?

Quero muito, mas não sei se conseguiremos circular muito. Os festivais não costumam curtir muito uma atração tão quietinha e o show que elaboramos exige um som bom, porque temos guitarra e bateria dividindo o palco com o violoncelo e o violão. Pode ser um desastre em algumas casas mais rock. Mas existe a possibilidade de fazer um show só de voz, violão e violoncelo, então não sei. Minha meta é conseguir fazer show de lançamento em São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Belém, cidades em que sinto haver pessoas que gostariam de me ver tocar. Se rolar nesses lugares, tá ótimo.

Beto, você mantém um blog (Blog do Beto Só) desde Fevereiro de 2007. Nesse tempo, qual avaliação você consegue fazer desse espaço como uma ferramenta de interação com o público?

O blog tem algumas funções, como permitir que eu mantenha contato com o público mesmo circulando pouco e também como maneira de colocar pra fora algumas ideias. Acaba ajudando a divulgar meu trabalho, porque falo de várias coisas e, às vezes, a pessoa vai parar lá só porque queria ler sobre o assunto que eu comentei. Um texto que fiz sobre por que apoiei a Dilma nas últimas eleições foi acessado umas 900 vezes. Muita gente que entrou ali certamente nunca tinha ouvido falar de mim.

E quem são os caras que andam tocando no seu player de músicas nesses últimos dias?

Além daqueles que falamos ali em cima, tenho ouvido muito Lestics, de São Paulo, pra mim a melhor banda do Brasil hoje, e gostei muito do trabalho solo do Alex Turner (Arctic Monkeys). Também continuo apaixonado pelo espanhol Sr Chinarro.

Como está o cenário musical em Brasília? Quem são as novas bandas da cidade que você destaca/recomenda?

As melhores, na minha opinião, são Watson, Suíte Super Luxo e Phonopop. O Prot(o) acabou, mas deixou dois discos muito bons que merecem ser ouvidos. O novo trabalho do Fernando Brasil (vocalista do Phonopop), chamado The Johnny Nit Circus, está excelente. E pros muito desinformados, existe o Móveis Coloniais de Acaju, que têm um show incrível. Mas eles, todo mundo já conhece.

É sabido que, além de cantor e compositor, você é também é jornalista. Quem são os caras do jornalismo que você admira e como você enxerga a classe hoje no Brasil?

No jornalismo musical admiro o Fernando Rosa, editor da Senhor F. Nunca vi alguém conhecer tanto sobre rock. Também admiro o Leandro Fortes, da Carta Capital, baita jornalista político e com um texto impressionantemente bem escrito. Adoro ler os textos da Eliana Brum também. Geniais.

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2 Responses to “Entrevista”


  1. 1 minimus (vulgo guilherme) 12/04/2011 às 14:54

    >viu só?! o cara tb curte 'residual'. te falei que essa música tinha que entrar no album =Pbóra fazer show em porto alegre! ;)abrass

  2. 2 Beto Só 13/04/2011 às 02:51

    >:-) reconheço, podia ter entrado mesmo. mas a música taí na rede. vamos tocar em porto alegra sim, com certeza!


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