Quer vender disco? Agrade de verdade seu público

Dia desses, respondi por e-mail as perguntas de uma entrevista para um blog. Uma delas questionava por que eu disponibilizava meus discos de graça na rede. Se era por ser um entusiasta da internet e do download gratuito ou por achar que não há mesmo o que fazer, então o melhor era tocar o foda-se. Coincidentemente, dias antes, tinha discutido essa questão com amigos, a partir de uma entrevista que Fred Zero Quatro deu ao G1, tecendo críticas à web 2.0. Resultado: voltei a pensar no assunto.

Fui à minha estante atrás das duas obras que, de certa forma, resumem o debate sobre o tema: ‘A cauda longa’, do editor da Wired, Chris Anderson, e ‘O culto do amador’, do empresário do Vale do Silício Andrew Keen, este último elogiado pelo líder do Mundo Livre S.A. Relendo trechos para rememorar os argumentos dos dois, vi que um não é precisamente a antítese do outro, apesar de o livro de Keen ser vendido como (e em alguns momentos ser de fato) uma espécie de “anti-Cauda longa”.
As abordagens, porém, são um pouco diferentes. Em ‘A cauda longa’, Anderson parece mais interessado em mostrar uma ótima oportunidade de negócios aberta pela internet. Resumidamente falando, ele diz que se dá bem na web quem oferece a maior variedade possível de produtos, apostando nos inúmeros mercados de nicho que a modernidade criou. Ele mostra, com análises e gráficos, que, ao contrário do que ocorre, por exemplo, com as lojas de disco físicas e vídeo locadoras, que veem seus negócios sendo reduzidos ano a ano, empresas como a Rhapsody, de venda de música digital, ou a Netflix, que aluga DVDs pela rede, comemoram o crescimento de negócios.
O segredo? Muita variedade em oferta. Por não precisar ter uma loja física e lidar com a limitação das prateleiras, essas empresas podem oferecer de tudo. A Rhapsody, por exemplo, pode ter músicas de um artista desconhecido como eu e da Madonna e oferecê-las do mesmo jeito. Já o Wall Mart perderia dinheiro usando o espaço limitado de seu estoque guardando um disco meu, que dificilmente seria vendido. A conseqüência é que o Wall Mart perde a chance de realizar milhões de vendas dos inúmeros artistas pequenos e pouco conhecidos que existem hoje no mundo. A Rhapsody não. Ela pode vender uma só música minha em um ano inteiro. Mas, como eu, existem milhares de artistas vendendo uma só música anualmente. No fim do ano, ela terá vendido milhares de músicas que o Wall Mart nem sequer consegue oferecer.
Anderson nos mostra então que as novas tecnologias, que permitem que eu grave meu disco de forma razoavelmente barata e depois a disponibilize pela internet, tem tudo para fazer com que se venda mais música. O que ocorre, porém, é que essas vendas são cada vez mais pulverizadas. O público hoje tem mais opções e pode – e isso é o maravilhoso dos tempos atuais – preferir comprar um disco do Superguidis do que um do Forfun. Anderson dá uma cacetada na indústria dizendo: não é só por causa do download fácil e gratuito que vocês vendem menos discos. É que o gosto do público hoje é dividido mesmo, graças às infinitas possibilidades de escolha. Em palavras menos elegantes que as de Anderson, está mais difícil enfiar essas porcarias goela abaixo do público porque o pessoal tem onde procurar coisa melhor.
Mas Anderson não é o único que tem coisas a dizer. A leitura de ‘O culto do amador’ traz algumas questões sobre as consequências da internet que certamente merecem análise. O foco de Keen está, como já diz o título do livro, na crítica a uma espécie de eudeusamento do conteúdo produzido por leigos. A artilharia do autor se volta para iniciativas como a Wikipedia e blogs feitos por leigos que disputam o público com a Enciclopédia Britânica e o New York Times. Keen argumenta que as pessoas que hoje ganham rios de dinheiro com a internet vendem uma falsa idéia de que é culturalmente vantajosa a enxurrada de conteúdo amador online, que disputa espaço com a produção de especialistas.
Ele cita casos de verbetes na Wikipedia em que leigos insistem em modificar o texto mesmo depois de professores de Harvard terem afirmado que a informação correta era outra. O alerta é: vendem-nos uma idéia de democratização da produção de conteúdo, mas o que fazem é criar um universo onde não se reconhece o valor do conhecimento adquirido por meio da especialização. Assim, podemos estar construindo uma sociedade mais burra, guiada por opiniões sem fundamento algum.
Quanto à música, Keen diz que esse discurso da democratização se manifesta de uma maneira um pouco diferente, mas com resultados igualmente desastrosos. Os entusiastas da internet, ele afirma, dizem que o download livre é a democratização do acesso à música. No entanto, para ele, trata-se apenas de uma forma de roubo que traz prejuízos e inviabiliza uma indústria que, com erros e acertos, nos proporcionou os Beatles, Paul Simon e Michael Jackson. Sem essa indústria, ele alerta, grandes talentos artísticos não poderão chegar ao nível profissional e ganhar pelo que produzem. Estarão fadados a serem eternamente artistas não remunerados, fazendo arte por diletantismo. Que tipo de arte teremos num mundo que não remunera seus artistas, ele questiona, lançando sombras apocalípticas sobre nossas cabeças.
Keen constrói bem seus argumentos, mas confesso que eles não me convencem. Primeiro porque, no último capítulo, que chama de “Soluções’, ele cita uma série de iniciativas já em curso, encontradas pela própria indústria, para usar a internet a seu favor. Ele cita, por exemplo, o serviço eMusic, no qual as pessoas pagam U$ 9,99 por mês para poderem baixar “legalmente” (as aspas são porque o termo ilegal nesse caso me parece mais que questionável) 30 músicas por mês dentre um variado catálogo. Na época em que ele escreveu o livro, 2007, o serviço contava com 250 mil assinantes. Outro dado citado por ele: em 2006, só nos Estados Unidos, foram vendidas 525 milhões de músicas no formato digital. Ou seja, parece que muita gente ainda está disposta a pagar por uma música de seus artistas favoritos. Anderson parece ter razão. Ainda se vende música, mas fenômenos como Michael Jackson tendem a se tornar cada vez mais raros, graças à pulverização de gostos e interesses.
Outra coisa que me faz questionar a visão de Keen é sua ideia de que o compartilhamento de música on line é roubo. Li em uma reportagem na revista Galileu que, meses atrás, a Suprema Corte Americana chegou a uma conclusão interessantíssima: ela recusou o argumento da indústria de que cada download feito via Torrent, Soulseek, eMule etc. poderia ser considerado uma venda perdida. Os juízes americanos disseram o óbvio: quem baixa algo não estaria necessariamente disposto a pagar por aquele conteúdo.
Quer coisa mais verdadeira? Dia desses, senti curiosidade de assistir esse filme de vampiro adolescente, ‘Crepúsculo’. Pensei em baixá-lo. Mas se não houvesse internet, você acha que eu pagaria para vê-lo no cinema ou num DVD? Nem a pau. Já pensou se nós tivéssemos de pagar por cada música que sentimos a curiosidade de ouvir? Isso eu fazia nos anos 80, quando a única fonte de informação que eu tinha era a revista Bizz, que trazia umas 15 resenhas mensais. O disco era barato e dava pra comprar uns três ou quatro por mês. E se algum amigo meu já tinha um LP, levava uma fita cassete pra ele e pedia pra ele copiar pra mim. Hoje é parecido, só que numa escala gigantesca. Foi a proporção que tornou a coisa digna de policiamento?
Agora, para fechar – porque, se eu não agüento mais escrever, imagina que decidiu ler esse texto –, o que falta talvez no discurso de iniciativas como o Música para Baixar é a lembrança de que o artista precisa ser remunerado sim. Ou seja, meu toque é: se das milhares de músicas que você baixou, você gostou muito de um artista, compre a música dele. Dia desses recebi um e-mail de uma pessoa dizendo que queria comprar meu primeiro disco, que está esgotado. Eu disse que não tinha, mas que ele poderia baixar todas as músicas na Trama Virtual. Ele respondeu dizendo que já tinha baixado há muito tempo, mas que queria ter o CD oficial. Essa é uma postura bacana. E é também sinal dos tempos. Quer vender disco? Agrade de verdade seu público.
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2 Responses to “Quer vender disco? Agrade de verdade seu público”


  1. 1 umimo-kun 06/11/2009 às 18:51

    >Concordo contigo. É isso que eu faço: eu baixo as músicas na net pr conhecer o artista, se eu gostar eu com toda a certeza vou procurar comprar o material dele.Pow, a net é um dos melhores meios para a divulgação (principalmente música), mas o problema são as pessoas que abusam disso. Acho um absurdo gente falando "Se tem na net de graça pra que eu vou comprar?". Aff… dã vontade de esganar ¬¬"Umino Kou.

  2. 2 Renato Nunes 23/11/2009 às 14:33

    >Cara, concordo com muita coisa no texto. Mas, há algo que, no meu entendimento, faltou.Acho que o produto "disco", pra permanecer viável, não pode ser apenas uma simples mídia com 10, 12 faixas e encarte com letras miúdas….Música sozinha nunca voltará a ser o atrativo para que se gaste dinheiro com um disco. É preciso ser um souvenir interessante, com uma parte gráfica bem elaborada, bem sacada. Nesse cenário, eu acredito que o CD morreu mesmo.É só lembrar que nunca foi possível adaptar completamente ao formatinho do CD o conceito de álbum, da época do vinil. Não há como comparar, por exemplo, um Tommy do The Who, em vinil com capa dupla, sobre capa em impressão de luxo, com sua versão CD.Música digital? De graça na rede, para todos. Produto comercial do músico? Show, álbuns (que além de músicas, tragam fotos exclusivas, letras e artes gráficas bem sacadas. Tudo em impressão de alto nível.), além das camisetas oficiais e outras bugigangas que a criatividade de cada artista permitir criar.Bom, é só minha opinião.Abs


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