Reflexões antes de partir para Curitiba

“O caminho é longo, mas não tenho pressa / Nem tenho certeza / Se você quiser e vier / Então venha.” Quando comecei a escrever a letra de ‘Vida boa não é vida ganha’ eu não estava pensando em uma história de amor, de homem e mulher, como os demais versos que foram surgindo acabaram por dar a entender. Pensava em meu irmão e parceiro, Ju, e na angústia que sentíamos com a dúvida se um dia seríamos ou não bem-sucedidos na música — o que naquela época significava ser famoso. Avisava-o no começo da canção que havia decidido seguir a passos lentos e que não tinha certeza de êxito, mas que gostaria de tê-lo ao meu lado.

Quando era moleque, eu sonhava com o estrelato. Assistia a vídeos do The Doors, especiais com os Smiths, ia a shows da Legião Urbana e me imaginava um Morrissey, um Renato Russo ou um Jim Morrison, cujos trejeitos cheguei a imitar muito bem. Se bem que, por eu ser gordinho, contorcer-me no palco como meu ídolo me deixava mais engraçado ou afrescalhado do que provocativo e sensual. O sonho de ser um rock star, porém, era proporcional à frustração e à ansiedade. A cada sinal de falha, que podia ser a não seleção para um show ou o sucesso de outras bandas que não a minha, ficava infeliz e derrotado.
Um dia, nos idos de 1997, fui tocar em um bar junto com uma banda daqui de Brasília que havia, duas semanas antes, se apresentado no programa do Jô Soares. Eles mexiam os pauzinhos como podiam e de forma bem esperta para conquistar espaços na mídia, e eu ficava intrigado sobre como eles conseguiam aquilo tudo. Conversando com os integrantes, descobri que o vocalista havia largado o emprego e se dedicava só à banda, porque a levava a sério. Perguntei-me se não deveria fazer o mesmo. Menos de dois anos depois, aquela banda havia acabado e o vocalista, desistido da carreira musical.
Na hora, tive a grande sacada da minha vida: é preciso controlar a ansiedade. Se a coisa demorar a acontecer, não verei como derrota, mas como parte do caminho, que deve ser longo mesmo. Achei por bem avisar meu parceiro dessa nova postura diante das coisas (que incluía não largar meu emprego nem partir pra um tudo ou nada a curto prazo) e compus ‘Vida boa…’, na qual aproveitei pra falar sobre outras dúvidas e medos também. A mensagem que importava pra mim na música, porém, era essa: controlar a ansiedade.
Desde então, tenho feito, de maneira disciplinada, esse exercício. Quando caio na besteira de contar o tempo que já passou, de me perguntar se não estou meio velho pra ficar tocando em porões mal iluminados e mau cheirosos ou comparar minhas conquistas com a de outros, lembro da epifania de anos atrás e digo a mim mesmo: “sem ansiedade, olha o que você já conseguiu…” Não é fácil, mas tenho certeza que só assim consegui chegar até aqui e ter vivido um bando de coisas que aquela banda que se apresentou no Jô há mais de 10 anos não pôde viver.
Sou feliz hoje. Assim como sou. Jornalista, músico, vivendo petinho da minha família, namorando a Carol, compondo e gravando meus discos. Estou indo para o terceiro!, e isso parece inacreditável. Viva a Senhor F Discos! Agora, esta semana, estou recebendo mais uma dessas recompensas fantásticas. Vou tocar no festival Rock de Inverno 7, em Curitiba (vejam o link do site no post abaixo).
Lembro que quando lancei o meu primeiro disco, em 2005, tinha uma grande expectativa a respeito de festivais. Achava que rodaria o Brasil lançando meu disco, mas não foi assim que as coisas rolaram. Poucos festivais pareciam achar que o som que faço se encaixava no evento (valeu, Monstro e Goiânia Noise!), ou então eles simplesmente não gostavam do que eu fazia. Mas aí eu pensei de novo: “ah, deixa rolar que um dia alguém vai achar que vale a pena levar você pra tocar”.
Depois disso, algumas manifestações de que eu poderia ser chamado para festivais em outros estados apareceram, mas foi mesmo Ivan e Adriane Perin que me ligaram e disseram: “Vem!” E vou feliz pra caralho. E não porque é um festival fora de Brasília. Mas porque é um festival com a minha turma! O Rock de Inverno parece ser o reduto de caras assim como eu, que gostam de ouvir e compor baladas, muitas vezes tristes. Que parecem ter se acostumado a usar a música pra pensar na vida.
Vou tocar com os maravilhosos Lestics, que têm letras fantásticas, com a emocionante Hotel Avenida, que me soa como o trabalho mais maduro que já ouvi do Ivan e do Giancarlo Rufatto, com o sempre bem-sacado Oneide (agora com Diedrich e os Marlenes — ouçam ‘Monte Carlo’), com o bacana Nevilton, e com meus ídolos de adolescência Fellini(ainda estou pensando se levo os discos pra eles autografarem ou não — é mico?). A recompensa é essa, fazer parte dessa turma. Sexta-feira será legal por isso! Ainda mais porque vou com uma tropinha de amigos pra lá de competentes: Ju, Fernando Brasil, Rinaldo Costa e Txotxa. Tô bem. Mais uma vez.
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4 Responses to “Reflexões antes de partir para Curitiba”


  1. 1 Marcelo Urânia 22/07/2009 às 09:25

    >Curitiba espera por Beto Só!(e belíssimo texto!)

  2. 2 De Inverno 22/07/2009 às 12:08

    >é isso, chegaí mano!

  3. 3 Flávio Jacobsen 23/07/2009 às 14:41

    >Seja bem-vindo, meu! traz blusa!

  4. 4 Beto Só 23/07/2009 às 16:48

    >Obrigado, amigos. Amanhã estamos aí! Vamos a fim de tocar e com medo do frio. Abraços.


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