Música em espanhol: desaprendendo a não gostar com Sr. Chinarro

A idéia é falar aqui da nossa resistência à música cantada em espanhol. E vou mesmo fazer isso um pouco mais adiante. Mas não resisti a começar o texto com uma pequena história, dessas que fazem vocês rirem de mim um pouco (um dia ainda escrevo sobre essa minha irresistível tendência de me autosacanear).
Trata-se de uma conversa curtinha, que tive com um crítico musical durante o show da banda Sr. Chinarro, da Espanha, que rolou no Festival El Mapa de Todos, no fim do ano passado. Eu tinha tocado no evento dois dias antes e estava ansioso para conhecer a banda liderada por Antonio Luque. Lá pela segunda música, o jornalista se dirige a mim:
_ Esperava mais. Tô achando meio ‘aburrido’ isso.
_ Eu tô gostando, respondi inocentemente.
_ Eu imaginei mesmo que você estivesse gostando, soltou o crítico, também inocentemente espero, sem se dar conta da crítica à minha música que escapava ali.
Pensei que daquele lado não viriam grandes elogios ao meu show nem ao do Sr. Chinarro. Mas não importava. Sei que não agradarei a todos (talvez à maioria…) e, independentemente da opinião do jornalista, aqueles espanhóis se transformaram na trilha sonora dos meus meses pós-El Mapa.
Eu e Carol compramos os dois discos mais recentes da banda, que foram importados para meu I-Pod. Hoje mesmo, passei o dia todo dirigindo e ouvindo as músicas de Luque e me dei conta de que é a primeira vez que um artista que canta em espanhol se torna um dos meus favoritos.
Ter participado do El Mapa de Todos (pra quem não sabe, o festival reuniu em Brasília bandas do Chile, Uruguai, Argentina, Espanha, Peru, Portugal e Brasil) abriu minha mente. A língua espanhola deixou de ser algo impossível de ser combinado com música pop e passou a soar bem aos meus ouvidos preconceituosos.
A apreciação artística é uma questão de aprendizado. E nunca foi tão imperativo para mim desaprender. Se há uma real barreira para o Brasil fazer parte da integração musical ibero-americana, me parece que é o preconceito à sonoridade do espanhol. Aprendemos a ouvir música em português e inglês. Precisamos desaprender a lição de que só nessas duas línguas o rock soa bem.
As melodias e os arranjos de Sr. Chinarro foram o que me motivaram a ouvir seus discos sem parar. E com o tempo passei a admirar a pronúncia de certas palavras, que se encaixam de forma tão singular nas canções. Palavras como “refrigerador” ou “autobus”, ou versos como “una pared desnuda y blanca”, cantadas de um jeito tão charmoso (isso, claro, se nos abrirmos o suficiente para nos encantarmos com algo que a princípio pode soar estranho).
Foi ouvindo a canção ‘Anacronismo’, do álbum ‘Ronroneando’, que percebi que ouvir música em espanhol traz a possibilidade de uma nova experiência poética/estética pra mim. Ou de que outra forma ouviria os versos abaixo?
“Ay, ay, ay, ¿por qué no estamos juntos?
Ay, ¿por qué me enamoré en el día de difuntos?”
Ouça: ‘El gran poder’
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