Um amigo vende seu sonho

O texto mais importante publicado na edição de sábado passado do Correio Braziliense não estava entre os assuntos selecionados para compor a capa do jornal. Tratava-se de um texto discreto, quase perdido entre tantos outros na seção de classificados: “Livraria completa – Mobiliada, ótimo ponto, clientela formada. Seis anos de história. 406 Norte.”

Sim, era um anúncio publicitário, mas era mais importante que toda a informação jornalística vendida a R$2 nas bancas. A importância é algo difícil de definir. Mas seria algo tão diferente de interesse? Acho que não. O que importa é o que nos interessa, nos toca, nos comove, nos faz pensar nos rumos da nossa vida. E, por isso, o anúncio da venda da Esquina da Palavra me importa tanto. A Esquina, mesmo que alguém a compre e mantenha o nome, está deixando de existir. E posso garantir que a sensação que paira no ar é a de que nós — todos nós que nos apaixonamos pelo canto que Lourenço Flores inventou na 406 norte da “cidade sem esquinas” — estamos perdendo algo precioso.
Há mais de cinco anos, escrevi um texto sobre a Esquina. Eu dizia, e era a mais pura verdade, que acreditar na capacidade do Lourenço de viver de sua livraria, que estava sendo inaugurada, me dava forças para acreditar que podia eu também realizar meus sonhos. Por isso, o sonho de Lourenço ser vendido agora me põe a pensar no que no aconteceu, para onde fui, para onde estou indo. Ou, olhando lá do alto, para onde vão as pessoas aos 30 e poucos anos de idade.
Não é por acaso que semana passada vasculhei as estantes de casa em busca de ‘Idade da Razão’, romance de Sartre, um de meus livros prediletos. Como Mathieu Delarue, tenho 34 anos, e às vezes me pego pensando que “estou velho”. Tempos atrás, seria capaz de transformar o fechamento da Esquina em um texto otimista. Provavelmente usaria alguma expressão (piegas?) como “novo começo” e tentaria dar forças ao meu amigo. Não consigo. É um episódio triste, não há lado bom, a não ser uma idéia racional de que é melhor abrir mão de um sonho do que se afundar em dívidas e assim plantar um futuro mais difícil do que este cruel presente. Eu e Lourenço estamos na idade da razão, e também todos os meus amigos mais próximos — alguns, meus mestres, já passaram dela, e me dão esperança…
Reconfortante, no entanto, é chegar a este ponto e ver que os delírios, os sonhos e os planos da época em que somos apenas moleques invocados em corpos de adultos são o amálgama das amizades que construímos com aqueles que realmente amamos. Aqueles que muitas vezes ficamos sem ver por meses, por causa do trabalho e do dia-a-dia corrido, mas estão sempre aqui, em nossos corações. E são esses sonhos e delírios também a raiz da recusa, embora hoje acompanhada de uma precaução racional, de abdicar completamente dos projetos que nos dão prazer e sentido à vida.
Lourenço será sempre meu amigo. E a Esquina sempre será o sonho que tornou nossa amizade mais forte. Não foi, portanto, um sonho em vão.
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4 Responses to “Um amigo vende seu sonho”


  1. 1 marcello 11/03/2008 às 12:25

    >É realmente uma pena… :-(Foda… ontem mesmo numa aula de Gestão Empreendedora, o assunto dominante foi como ir atrás dos seus sonhos.O curioso é que desde que voltei de Sampa, a combinação Sonhos + Planos + Mundo Cruel + Dura Realidade faz parte da minha rotina. Em todos os momentos, sempre isto aparece. Seja da maneira mais inesperada possível.Mas Beto, ainda acho que não estamos tão velhos para desistir. Talvez o segredo seja aprender e saber lidar com o processo todo.Me disseram ontem que todo sonho depende de nós e só acontece no momento adequado.Sendo assim, quero acreditar que no futuro estaremos comprando livros do nosso amigo Lourenço numa fase mais calma de nossas vidas.

  2. 2 Beto Só 12/03/2008 às 02:31

    >valeu o recado, velhinho. Concordo com você. Ando um pouco pessimista, talvez. Mas definitivamente estar velho não é estar velho demais :-)Um abração.

  3. 3 Luciana Barreto de 12/03/2008 às 16:49

    >Navegando por aí,sem nem desconfiar o que ia encontrar, descobri esta nota de venda e pensei: o Beto deve ter postado alguma coisa.Estou sem palavras…

  4. 4 Fernando 13/03/2008 às 23:11

    >Não consegui segurar minha vontade de chorar. E chorei… Por todos nós.


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