Não somos gênios

A primeira música minha que tomou forma, isso é, que eu mostrei para uma banda que fez um arranjo e a transformou em uma canção pronta para ser tocada em um show, chamava-se ‘Merda’. Era uma composição do Ju, meu irmão, com letra minha. Eu tinha, então, 16 anos de idade.

‘Merda’ era uma canção ingênua, mas que merecia crédito, afinal conseguia expressar raiva e desencanto de uma maneira juvenil sincera. Dizia tudo o que eu precisava dizer naquele momento.

A letra falava basicamente que não havia mais nada a ser criado, que estávamos condenados a nunca mais fazer algo inovador, depois de Shakespeare, Fellini, Mozart ou tantos outros gênios. Também lançava uma profunda descrença sobre a minha geração, lembrando que nunca mais surgiu um outro Che Guevara.

Como podem notar, desde cedo eu era pessimista e consciente das minhas limitações. A letra:

Merda

Tudo que você cria já foi criado
Seu Da Vinci de merda
Tudo que você pinta já foi pintado
Seu Van Gogh de merda
Tudo que você filma já foi filmado
Seu Fellini de merda

Seu Mozart de merda!

Tudo que você escreve já foi escrito
Seu Shakespeare de merda
Sua revolução falhou
Seu Guevara de merda
E seu jardim morreu

Seu Mozart de merda!

PS: Notem que eu demonstrava uma preocupação poética, terminando a segunda estrofe com um jardim morto… 🙂

É curioso pensar em ‘Merda’ hoje e ver como aquela música já trazia elementos que caracterizariam toda a minha produção musical. O primeiro, mais óbvio, é a forma de compor em parceria com meu irmão, como ainda acontece.

Depois, a forma de me expressar, que rendeu e rende até hoje a acusação de ser pretensioso. Muitos colegas de segundo grau achavam uma pretensão imperdoável eu citar Fellini numa música de rock (e acho que o fato de repetir a letra depois do solo trocando Fellini por Griffith e Van Gogh por Caravaggio deixava meus detratores ainda mais irritados).

O que leva a um terceiro ponto, que também continua até hoje, que é a sensação de que sou incompreendido. Afinal, a música falava que no fundo eu e toda a minha geração éramos medíocres. Porém, me acusavam exatamente do contrário, de ser metido, por citar Fellini. Na época eu sentia algo parecido com o que sinto quando me chamam, no meio independente, de extremamente pop, sem perceberem que minhas músicas não são assim de degustação tão fácil. ‘Merda’ já dizia muito sobre mim. E foi bom perceber isso agora.

De onde vem a lembrança?

Eu lembrei de ‘Merda’ por causa de dois textos. O primeiro foi uma discussão a respeito das artes plásticas, em que Luciano Trigo cita em seu blog a análise de Ferreira Gullar sobre instalações de duas artistas plásticas contemporâneas: “Prefiro ficar em casa lendo Hamlet”, ele disse.

O outro texto está no site Música Folk e é sobre uma banda chamada Lestics. O Flávio Campos, autor do site, destacava a letra de Gênio, uma das composições do duo paulistano. Reparem o que eles dizem em ‘Gênio’, que vocês podem ouvir aqui:

Gênio

Shakespeare e os gregos
já disseram tudo antes
E você não quer viver
à sombra de gigantes

Três ou quatro genes
te separam da grandeza
Mas culpar seus pais
não é da sua natureza

Você tem a alma
atormentada de um gênio
Pena que te falte
uma pitada de talento

Só a solidão do topo
iria te acalmar
Todo mundo te entende
e isso te parece tão vulgar

Você tem a alma
atormentada de um gênio
Mas te falta
o talento

Achei a letra muito boa e me pareceu uma espécie de ‘Merda’ requintada, feita não por um adolescente invocado, mas por um grande letrista. Depois descobri que o Lestics é formado por Olavo Rocha e Umberto Serpieri, membros da ótima Gianoukas Papoulas, certamente uma das cinco bandas com as melhores letras do Brasil (ao lado de Proto, Superguidis, Mundo Livre SA e alguma outra que a gente deixa em branco para não cometer injustiças), o que explicou a qualidade de ‘Gênio’.

Por isso, além de relembrar ‘Merda’, também queria recomendar os caras e o blog do Luciano Trigo, o Máquina de Escrever. Pra ir no blog (indicação do Lourenço!), basta clicar aqui. Já ali embaixo, vocês podem ouvir uma música bem bacana do Gianoukas, chamada ‘Dois Perdidos’, cuja letra considero muito, mas muito boa mesmo. O disco todo deles vocês baixam aqui.

Beijos!


Dois Perdidos (Miranda/Rocha)

Parada no meio da sala
ela tem um quarto na mão
um outro quarto entre os dentes
e dois perdidos no chão

Achados dois quartos tangentes
aos tacos tortos do chão
os outros dois onde estão?
Um na mão e um entre os dentes

Dessas coisas não se abusa
dois quartos são suficientes
Ela guarda os do chão e usa
o da mão e o que estava entre os dentes

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1 Response to “Não somos gênios”


  1. 1 De Inverno 02/01/2008 às 15:39

    >Gianoukas é genial, e o Lestics segue na mesma trilha. abraço e bom 2008!


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