O papel do artista quando jovem

Atualmente estou gravando meu segundo disco. Devemos terminá-lo em agosto. Pretensioso que sou – essa é uma das críticas negativas que mais gosto de ouvir em relação ao meu trabalho -, me pergunto se estou conseguindo fazer um disco que importe, que faça sentido e possa acrescentar algo na experiência das pessoas que o escutem.

Recentemente, me deparei com duas sugestões direcionadas aos jovens artistas e que divido com vocês. A primeira é do escritor e diretor de teatro Fernando Bonassi (foto), que recentemente estreou em São Paulo a peça ‘O Incrível menino da fotografia’. Em um programa da Globo News, ele afirmou que a única saída hoje para o artista é causar incômodo no público.

A frase foi dita dentro de uma reflexão sobre a função da arte nesses dias atuais, em que artistas e sociedade parecem anestesiados, sem saber o que pode ser feito para mudar o atual estado das coisas. Bonassi disse que quando alguns mais aflitos (e vira e mexe eu sou um desses aflitos) lhe questionam sobre o que devem fazer, ele sugere: “não façam”. Não façam o que estão todos fazendo, não sigam o fluxo dos acomodados. Parem e se recusem a ir com os outros.

Dessa forma, Bonassi nos convida a lançarmos um olhar desconfiado à essa normalidade instalada que nos faz levar a vida assim, meio sem gosto e rumo ao caos – caos ambiental, intelecutal, cultural, social… Dentro desse contexto, ao artista resta, portanto, não levantar bandeiras ou indicar o caminho certo (como era possível e imperativo na década de 60), mas causar o desconforto que leva ao questionamento e nos ajuda a despertar da letargia. Ao defender essa postura, Bonassi parece aproximar o papel do artista ao do intelectual, que segundo o geógrafo Nilton Santos era o de “mostrar que as coisas podem ser diferentes”.

A outra dica veio de um dos meus mestres, meu professor e hoje – com muito orgulho – colega Severino Francisco. Em um artigo que escreveu para o jornal da faculdade onde dá aulas, Francisco diz:

“Em um país invadido e submetido pela cultura estrangeira, como é o caso do Brasil, restam [ao artista] seis alternativas: 1) escrever uma carta em tupi-guarani reclamando para o presidente da República, como faz o personagem Policarpo Quaresma, de Lima Barreto; 2) entronizar a cafonice e proclamar “sou brega, mas sou feliz”, como fizeram Xuxa, Hebe Camargo e as duplas sertanejas; 3) compor e cantar em inglês, como optaram alguns grupos de rock; 4) adotar um universalismo abstrato e ignorar qualquer circunstância local, regional ou nacional; 5) imitar a última novidade de Nova York, Paris ou Londres e fazer uma vanguarda requentada, de terceira mão; 6) assumir a condição brasileira terceiro mundista, com toda a sua potência e contradições, de uma maneira crítica e criadora, sem se fechar aos influxos da cultura internacional”.


Mais adiante, ele continua:

“Embora esteja em baixa na pasmaceira pós-moderna conformista na qual estamos mergulhados, esta última me parece a atitude mais fértil se examinarmos a história da cultura brasileira.”


Arrisco dizer, que em termos de música pop, estão no meio independente aqueles que têm potencial para seguir esse caminho, a começar pela teimosia de sobreviver à margem do pastiche de sonho americano vendido pelas majors, que entopem, às custas de jabá, a programação das rádios com lixo cultural. Minha pretensão me faz querer ir além da sobrevivência no mundo independente, produzindo arte incômoda e brasileira (que não precisa, como diz meu amigo Cláudio Bull, ter necessariamente elementos nordestinos ou regionalizados). Espero que eu consiga. Se não neste próximo disco, nos outros que virão – por teimosia e prazer.

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2 Responses to “O papel do artista quando jovem”


  1. 1 Tio Zé 21/07/2007 às 00:20

    >É muito bom ver um cantor como voce que se preocupa em fazer coisas relevantes no meio de tanta coisa superficial. Já essa idéia de que resta ao artista causar incomodo. Não concordo, isso cai um pouco na discussão do conceito de arte e sua finalidade. Mas resumindo, acho que idéias como essa fundamentam manifestações ditas artisticas bem duvidosas. Ai, gostei do seu blog. Devo visitar mais vezes.

  2. 2 Beto Só 22/07/2007 às 21:29

    >Olá, Tio Zé. Bacana que tenha passado e que ache que deva voltar. Vou esperar mais comentários. E é claro que só incomodar não é garantia de boa arte… 🙂 abs!PS: Erick, tirou seu comentário? Ia te responder, mas viajei no fim de semana… abraço pra você!


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