Vovó, 104 anos!

 

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Hoje, minha avó Anita completou 104 anos. Surpreendeu a família com um bom humor, uma lucidez e uma memória excepcionais, que já não aparecem todo dia. Sorriu quando soube que estávamos lá para cantar parabéns e, depois, comeu dois pedacinhos de bolo, que foi elogiado: “Tá uma delícia. Maciiiiiio…”

Lembrei, então, de uma pequena entrevista que fiz com ela há nove anos, quando ela completou 95, e tive vontade de repúblicá-la aqui.

Vó, quantos anos a senhora tá fazendo hoje?
95.

E é bom ou ruim?
É bom. Acho que passei bem o tempo.

E o que é o melhor em fazer 95, vó?
Ah, acho que a gente viver bem com a família, estarmos todos juntos.

E qual a melhor lembrança que a senhora tem? Consegue pensar em alguma?
Tenho muitas lembranças boas. Acho que quando meu filho mais velho fez aniversário [de um ano]. Foi muito bom. E depois vieram os outros filhos. Todos foram muito bons também. Viveram bem. Acho que isso é que vale.

E, vó, o que a senhora acha que é a coisa mais importante na vida?
Acho que é viver bem, ser honesto, trabalhador, não depender dos outros.

Vó, a senhora sabe me dizer o que é o amor?
Amor é muito bom. A gente depende do amor pra viver.

E vó, que mensagem a senhora queria mandar pra sua família hoje, que a senhora faz 95 anos?
Que estejam bem, com saúde. Que sejam trabalhadores. Que convivam com a família e com as outras pessoas com amor. Acho que isso é que vale.

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Por que ‘Walking Dead’ favorece a candidatura Trump e deve ser a série favorita dos fãs de Bolsonaro

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Eu parei de assistir a ‘The Walking Dead’ no dia em que um garoto que, naquele episódio, aparentava uns 10 anos, filho do xerife que lidera a turma, apareceu com um revólver preso à cintura. A arma batia no seu joelho. “Isso tá errado”, pensei, sem elaborar muito a questão.

Passados uns anos, recentemente voltei a assistir a alguns episódios, da quinta temporada. Três coisas me chamaram a atenção.

1) Os zumbis viraram coadjuvantes completamente. Numa das cenas, uma mulher chora a morte da irmã quando um zumbi chega por trás dela, grunhindo e andando lenta e tropegamente. Ela faz uma cara de irritação, como quem diz “Me deixa chorar em paz”, levanta-se e crava uma faca na testa do zumbi.

2) Um diálogo mais ou menos assim: — Hoje, as pessoas são tão perigosas quanto os zumbis. — Não, as pessoas são mais.

3) O grupo central ressaltar o tempo todo, para si mesmo e para os outros, que eles são uma família e que, para salvar aquela família, são capazes de qualquer coisa.

O que essas três coisas nos dizem? No desenrolar da série, os criadores tiveram uma boa sacada, não muito original, mas boa, que costuma funcionar. Usar o apocalipse zumbi para refletir sobre a humanidade. Assim, a cena descrita no item 1 mostra como os zumbis viraram o trabalho do dia a dia. Do mesmo jeito que a gente levanta todo dia pra bater o ponto, os personagens devem evitar ou matar zumbis e encontrar abrigo e comida. Viver é isso.

Bem, viver seria isso, se não fosse o resto das pessoas. Os outros, os que não são da sua família. Pode até haver um ou outro do bem, mas, via de regra, o que eles querem é pegar o que você tem e te deixar na pior. Até mesmo quando não há má intenção de ninguém, o conflito de interesses é tão grande que o caldo sempre desanda.

Por isso, o que resta à família de bem comandada pelo xerife? Armar-se até os dentes e não dar mole pra estranhos. Claro, eles são “do bem”, então não atiram de primeira, mas estão sempre com o dedo no gatilho.

Agora, pensem comigo. Com qual candidato às eleições americanas o discurso devemos proteger a família de bem, dando a ela o direito de se defender armada contra o povo do mal? É muito Trump isso aí. E muito Bolsonaro também.

 

Um clipe para a Marina e o Buarim

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Há um ano, minha queridíssima amiga Marina Oliveira perdia o “amor da sua vida”, o também muito querido Oswaldo Buarim. Há alguns meses, Marina deu início a um blog no qual conta como tem sido viver sem a presença tão importante do Buarim, o que virou uma coleção de textos maravilhosos e sensíveis sobre a vida.

Semanas atrás, ela me enviou um texto que planejava publicar hoje, e pediu que eu editasse um vídeo para acompanhá-lo. Esse vídeo acabou virando um clipe de uma de minhas músicas, ‘Desatento’, que quero compartilhar com vocês, pedindo que visitem o blog da Marinete Patinete. Acho que vale a pena ler o texto e se emocionar com a felicidade que esse casal irradiava, como fica óbvio nas imagens. Basta seguir o link abaixo. Beijos.

http://marinavivendoeescrevendo.blogspot.com.br/2016/01/videoclipe.html

Tentando vencer os melhores

Cedo, aprendi uma importante lição. Foi com meu tio Manoel. Eu, garotinho, mostrava orgulhoso um desenho que havia feito, elogiado pela tia da escola, mas sua análise era implacável: “Tá bonito, mas não é nenhum Monet”. A mesma coisa, um pouco mais tarde, com as redações, também festejadas pelas professoras: “É… mas não chega a ser um Machado de Assis”. Pode parecer, para o caro leitor, que tio Manoel era um adulto cruel — e seu notório mau humor, que lhe deu o apelido de Maisena (porque engrossava fácil), poderia servir como mais um indício —, mas não vejo assim. Com seu controverso método, ele tentava me preparar para um fato inexorável da vida: sempre estamos prestes a encontrar pessoas melhores que a gente por aí, por mais que nos achemos bons no que fazemos.

Criança, eu não sabia quem era Monet ou Machado, mas entendia que eles estavam em um nível bem acima do meu, mesmo que as tias falassem de um jeito que me fazia acreditar ser o melhor do mundo. Depois, as evidências da minha mediocridade começaram a ficar mais claras. Eu não ganhava uma partida sequer do Fernando no futebol de botão, o Marcelinho nunca era pego no pique-esconde, o Vinícius era um ás da bicicleta, e a Rô, minha irmã, jogava bete melhor que os moleques da quadra — até aparecer o Mario Zan, um garoto batizado em homenagem ao famoso acordeonista que “zunia” a bolinha com um mero cabo de vassoura (a regra do “outro melhor” existia também para a Rô, deduzi nesse dia).

O tempo passou e, na adolescência, acreditei que finalmente tinha encontrado uma habilidade na qual ninguém poderia me superar: eu era muito engraçado. Nos almoços de família, nas mesas de lanchonete e até mesmo no meio da rua, o povo parava para ouvir e gargalhar das besteiras que eu falava. Resolvi, então, mostrar esse talento para um público maior, no Jogo de Cena, a tradicional mostra de artes de Brasília que existe há uns bons 30 anos.

Inscrevi-me no quadro Desafio da Noite, no qual tínhamos de improvisar uma cena a partir de um tema dado na hora pela produção. Como esperava, o povo morreu de rir de mim e de meu parceiro de esquete. Mas riu bem mais de dois caras que se apresentaram depois. Malditos! Não me dei por vencido e voltei no Jogo seguinte. Fiz o povo rir ainda mais, mas, na hora de votar em quem tinha sido melhor, a plateia, outra vez, preferiu aquela dupla de engraçadinhos. E a cena se repetiu tantas outras vezes. Mesmo no dia em que tínhamos de convencer as pessoas de que dois mais dois são cinco, e eu as convenci ao encarnar um hipnotizador!, um daqueles dois carrascos me apareceu com uma imitação da então ministra da Economia, Zélia Cardoso, e me venceu. Mais uma vez.

Certa noite, determinado, dei tudo de mim. Durante uma cena, me joguei no chão, dei cambalhotas, gritei e arranquei muitas, muitas risadas da audiência. Nesse dia, finalmente, venci! Mas o extenso placar de derrotas, que faria o vexame da Seleção Brasileira diante da Alemanha parecer coisa de criança, me fez lembrar das lições do tio Manoel. Eu era engraçado, mas não era o melhor do mundo. Os Melhores do Mundo, todos saberíamos anos depois, eram mesmo aqueles dois talentos do humor que sempre me venciam e atendiam pelo nome de Welder e Pipo.

PS: Welder e Pipo, vocês são muito bons, mas não chegam a ser um Monty Python, ok?

Crônica que publiquei ontem no Correio Braziliense.

E vejam com quem eu estava competindo…

David Bowie (1947-2016)

Apartamentos acesos e vivos

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Balaio Café / Praça dos Prazeres (201 Norte). Foto: João Sassi

Dia desses, tive um medo pior que o de morrer: o de não ter existido. Foi lendo Entrevistas, livro que reúne conversas de Clarice Lispector com diversas personalidades brasileiras, publicadas nas revistas Manchete, entre 1968 e 1969, e Fatos e Fotos: Gente, entre 1976 e 1977. Eu percorria a obra de acordo com o interesse pelos entrevistados. Já havia passado pelos bate-papos com Nelson Rodrigues, Chico Buarque, MillIôr Fernandes e Vinícius de Moraes quando cheguei a Oscar Niemeyer. E aí caiu a ficha: Brasília por pouco não existiu. Antes de ser construída, a cidade era uma ideia absurda para muitos. E, mesmo depois de inaugurada, quase foi abandonada, já que muitos queriam manter a capital no Rio.

Brasília era ainda uma criança quando Clarice entrevistou Niemeyer. Para a escritora, o Plano Piloto era um grande vazio, verdadeiro símbolo da morte. Em dado momento, ela indagou ao mestre arquiteto: “Por que você acha que escrevi: ‘Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer’”? E Niemeyer disse: “Porque Brasília lhe parece uma cidade sem vida. (…) Quando Le Corbusier comentou que Brasília estava ameaçada de abandono pelo governo de Castelo Branco, ele respondeu: ‘Será uma pena! Mas que belas ruínas teremos’”.

Que visão assustadora, angustiante, imaginar a capital um monte de destroços, como diz Caetano em Fora da ordem — “Aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína”. Imaginei-me, primeiro, personagem de um filme insólito, andando solitário por ruínas monumentais. Depois, percebi que, sem a cidade, não seria o que sou, e talvez não fosse nada.

A conversa entre os dois artistas me tornou consciente de uma grande responsabilidade que temos, nós brasilienses, por nascença ou opção. É nosso dever dar vida a uma cidade que nasceu antes de viver, porque nasceu quase sem gente. Quando insistimos em habitar esse pedaço de cerrado, cravando nele histórias, paixões e lugares preferidos, injetamos carne, sangue e coração em seu majestoso esqueleto.

A entrevista também me ajudou a entender por que sempre me emociono quando ouço Renato Russo cantar: “E você passa de noite e sempre vê apartamentos acesos”. Por algum motivo que não sabia explicar, sempre achei esse verso a cara de Brasília, mesmo que a cena descrita nele possa ser vista em qualquer cidade. Agora eu sei. É que a claridade saindo das janelas e rompendo a escuridão das superquadras é vida que insiste em brotar. Assim como também é vida a música e a arte que, hoje, alguns tentam silenciar. Amigos, não esqueçamos a nossa responsabilidade. Não deixemos, por radicalismos, morrer a cidade que tanto lutou para nascer.

Crônica publicada no Correio Braziliense em 25 de dezembro de 2015.

Lembrança de Júpiter

Quando fiquei amigo de uma turma de gaúchos que habita Brasília, logo notei que eles até achavam o rock dos anos 1980 e 1990 da nossa cidade bom, mas legal mesmo, “afudê”, eram as bandas de Porto Alegre e adjacências. Uma mistura de orgulho e lembranças bacanas fazia os olhos dessas pessoas brilharem quando elas falavam de Replicantes, TNT, Os Cascavelettes, Graforréia Xilarmônica e tantos outros artistas que forjaram a identidade jovem do Rio Grande. Eu até concordava que o excesso de seriedade da Turma da Colina podia soar bobo passado um tempo, mas não engolia bem a infantilidade e o machismo que reparava da produção sulista.

Porém, para quem nasceu em uma cidade que, de maneira geral, só presta atenção nos músicos locais quando eles ganham reconhecimento nacional — “nossa, eles são de Brasília?!” —, ver a paixão dos gaudérios por artistas que não eram muito famosos no resto do país me deixava admirado e curioso. Gostaria de ver alguns desses heróis dos pampas em ação, pensava.

A chance veio no comecinho dos anos 2000, quando o saudoso Gate’s Pub abriu espaço para o rock independente, graças ao empenho de um de seus sócios, Rubens Carvalho. O bar da 403 Sul virou o lugar mais amado pelos roqueiros da cidade, que iam lá por causa das festas, da Quarta Vinil e das memoráveis Noites Senhor F, que o jornalista Fernando Rosa (outro gaúcho radicado no Plano Piloto) organizava. As Noites abriram espaço para dezenas de bandas brasilienses, mas também foram responsáveis pelos primeiros shows na cidade de vários artistas de fora, incluindo os do Sul, como Cachorro Grande, a própria Graforréia e Frank Jorge.

Em maio de 2005, Fernando montou uma edição especial do evento, uma Super Noite Senhor F, que reuniu, em dois dias, oito bandas, tendo no encerramento, cereja do bolo, Júpiter Maçã, nome artístico de Flávio Basso, fundador do TNT e dos Cascavelettes. Eu não podia perder essa estreia do músico na capital, até porque tinha sido escalado para abrir a noite (sim, como quase todo mundo em Brasília, eu também sempre tive banda).

Ficava imaginando como seria o sujeito, aparente encarnação da irreverência e do non-sense, e me surpreendi quando fui apresentado a ele na passagem de som. Ele me pareceu doce e simpático. Foi na hora do show, porém, que a força de Júpiter ficou clara. Para um Gate’s bem cheio, ele desfilou composições tão criativas quanto originais, que me pareceram bem melhores que as do início de carreira, ora o retrato de uma grande parte da juventude, ora uma viagem tropicalista irônica, boa descrição para ‘A marchinha psicótica do Dr. Soup’.

Inesquecível, contudo, foi o momento em que, empolgado, emocionado, enlouquecido, o público cantou com ele a canção que capta tão bem o desejo que se tem quando se é novo e se ama o rock: “Eu preciso encontrar / Um lugar legal pra mim / Dançar e me escabelar / Tem que ter um som legal / Tem que ter gente legal / E ter cerveja barata”. Impossível não se render a um artista que cria um hino. Não é qualquer um que consegue isso. Naquela noite, o Gate’s Pub foi o título dessa canção: ‘Um lugar do caralho’.

Anteontem, Júpiter morreu, aos 47 anos, em Porto Alegre, depois de sofrer um acidente em casa. Deixa milhares de admiradores, hoje espalhados muito além das fronteiras gaúchas. Valeu, Júpiter.

Crônica publicada no Correio Braziliense em 23 de dezembro.

E o hino:


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El mundo no escuchará. Phil collins. Esperando com uma turma da pesada. Chicago, 2016. Here comes the sun...

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